A carreira em pediatria no Brasil – Panorama e perspectivas futuras

Médica de máscara e jaleco com estetoscópio, em hospital, com paciente infantil deitado ao fundo.

Índice

A Pediatria é uma das especialidades médicas mais tradicionais e essenciais no Brasil, responsável por cuidar da saúde de crianças e adolescentes desde o nascimento até o fim da adolescência. Este conteúdo explora em profundidade a carreira em Pediatria no Brasil, trazendo números atualizados sobre o quantitativo e distribuição de pediatras, características do mercado de trabalho e rotina profissional, oportunidades de subespecialização, remuneração, qualidade de vida, perspectivas futuras e exemplos de empreendedorismo na área.

Com base em dados recentes, incluindo o estudo Demografia Médica no Brasil 2025, e fontes oficiais como o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), traçamos um panorama técnico e científico deste campo, com linguagem acessível para médicos e estudantes de medicina.

Quantos são os pediatras e onde estão? Números e desigualdades regionais

De acordo com a Demografia Médica 2025, o Brasil contava com 47.787 pediatras em atividade em 2024, o que faz da Pediatria a segunda especialidade com maior número de médicos no país (cerca de 10% dos especialistas), atrás apenas de Clínica Médica. Isso representa quase o dobro do número de pediatras em pouco mais de uma década – eram cerca de 25,2 mil em 2011, indicando um crescimento absoluto de 22,5 mil profissionais (alta de 89,6%) até 2024. Em termos proporcionais, o Brasil possui em média 23,53 pediatras por 100 mil habitantes (considerando a população total), índice acima da média de 18,05/100 mil observada em 41 países avaliados.

Quando ajustado para a população pediátrica (habitantes de 0 a 19 anos, cerca de 54,5 milhões no país, a razão nacional é de 94,7 pediatras por 100 mil crianças/adolescentes

Apesar do número total elevado, a distribuição geográfica desses especialistas é extremamente desigual. Regiões mais ricas e urbanizadas concentram a maioria dos pediatras, enquanto áreas mais pobres ou interioranas sofrem escassez do especialista. Em média, Sul e Sudeste contam com até 5 vezes mais pediatras por criança do que estados do Norte e Nordeste. O Distrito Federal lidera o ranking, com 258 pediatras por 100 mil habitantes ≤19 anos, seguido por estados do Sudeste e Sul como Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo e Rio Grande do Sul – todos com indicadores muito acima da média nacional. Já unidades federativas como Maranhão, Pará, Acre, Amazonas e Amapá apresentam as menores coberturas, abaixo de 40 pediatras/100 mil jovens

A tabela abaixo ilustra a disparidade entre alguns dos maiores e menores índices estaduais:

Estados com maior cobertura (pediatras/100 mil ≤19 anos)ÍndiceEstados com menor cobertura (pediatras/100 mil ≤19 anos)Índice
Distrito Federal258,3Maranhão28,0
Rio de Janeiro147,9Pará28,7
Espírito Santo140,2
Acre33,4
São Paulo136,1Amazonas
37,5
Rio Grande do Sul126,0Amapá38,0

Fonte: Demografia Médica 2025

Essa desigualdade evidencia um problema de distribuição: não faltam pediatras no Brasil como um todo, mas sim nos lugares onde eles mais são necessários. Grandes centros urbanos e regiões economicamente mais desenvolvidas atraem a maioria desses profissionais, deixando vastos interiores e áreas periféricas com cobertura insuficiente. Segundo o conselheiro do CFM Eduardo Jorge Lima, o desafio não é a formação de médicos pediatras, e sim “a forma como estão distribuídos”. Muitos municípios menores dependem de clínicos gerais para atender crianças, e há casos extremos como no Rio Grande do Sul, em que 132 dos 497 municípios não possuíam nenhum pediatra na rede pública em 2023. Em resposta, iniciativas públicas buscam melhorar esse quadro – por exemplo, programas federais recentes (como o Cuida Mais Brasil) incentivam a contratação de pediatras e neonatologistas na Atenção Primária em saúde para ampliar a assistência infantil nas áreas de maior vulnerabilidade.

A necessidade crescente de pediatras em regiões carentes decorre de fatores como o aumento populacional no passado e a persistência de elevadas demandas assistenciais. Embora a natalidade esteja em queda (a taxa de fecundidade caiu para 1,57 filho por mulher em 2023, ante 2,32 em 2000), a população pediátrica absoluta ainda é grande (mais de 50 milhões de brasileiros até 19 anos) e requer cuidados frequentes. Além disso, cada criança hoje tende a receber mais atenção e investimentos dos pais – fenômeno esperado em famílias menores. Estatísticas do SUS indicam que crianças e adolescentes realizam em média até 10 consultas médicas por ano, seja para acompanhamento de rotina, vacinação ou tratamento de enfermidades. Ou seja, mesmo com menos nascimentos, o volume de atendimentos pediátricos permanece alto, o que justifica a demanda contínua por especialistas. Projetando o ideal de cobertura, a SBP estima que seriam necessários ~358 mil pediatras para dar conta de todas as consultas pediátricas do país, se cada médico atendesse 160 consultas mensais – um número muito superior ao contingente atual, mostrando que há espaço e necessidade para mais pediatras, sobretudo em locais hoje desassistidos.

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Mercado de trabalho e rotina do pediatra: onde e como esses médicos atuam?

O mercado de trabalho para pediatras é amplo e em expansão, abrangendo desde serviços públicos essenciais até a iniciativa privada. Por ser especialista no cuidado integral de crianças e adolescentes, o pediatra é necessário em diversos níveis de atenção: maternidades e salas de parto (recepção ao recém-nascido), berçários e UTIs neonatais, prontos-socorros pediátricos e unidades de terapia intensiva pediátrica, ambulatórios gerais e de especialidades, postos de saúde e clínicas da família, além de consultórios particulares. Há também pediatras atuando em áreas administrativas (gestão de programas de saúde da criança), na carreira militar, no transporte médico (ambulâncias dedicadas a pacientes infantis), em escolas (como consultores de saúde escolar) e em ensino/pesquisa acadêmica. Essa variedade de cenários de atuação reflete a importância do pediatra em todas as etapas do cuidado infantil, da prevenção e promoção de saúde ao tratamento de doenças complexas.

A rotina do pediatra varia bastante conforme o local de trabalho e possíveis subespecialidades. De modo geral, grande parte dos pediatras dedica-se ao atendimento ambulatorial – seja em consultório próprio ou em clínicas/hospitais – realizando consultas de puericultura (acompanhamento do crescimento e desenvolvimento), consultas de doenças agudas e seguimento de condições crônicas. Nessa função, além de diagnosticar e tratar enfermidades, o pediatra exerce um papel educativo, orientando pais sobre vacinação, nutrição, prevenção de acidentes, saúde mental e outros cuidados essenciais na infância. Empatia, paciência e boa comunicação são atributos indispensáveis: o pediatra se torna uma figura de confiança para a criança e sua família, muitas vezes acompanhando o paciente por anos ou até décadas (da infância à adolescência).

Por outro lado, pediatras que atuam em serviços de emergência, UTIs e neonatologia vivenciam rotinas de alta intensidade: plantões prolongados (12-24h), atendimentos de urgência, procedimentos invasivos e tomada rápida de decisões críticas. Por exemplo, o neonatologista frequentemente trabalha exclusivamente em regime de plantão em UTI neonatal ou sala de parto, lidando com bebês prematuros e situações delicadas. Já quem atua em prontos-socorros pediátricos enfrenta fluxos imprevisíveis de pacientes com quadros agudos, desde viroses comuns até traumas e emergências graves. Há alta demanda por pediatras plantonistas em muitos hospitais, dada a escassez de profissionais dispostos a trabalhar em horários noturnos e fins de semana. Consequentemente, vagas de plantão em emergência, UTIs pediátricas e neonatal costumam estar sempre abertas e oferecem remuneração atrativa (falaremos a seguir).

Apesar da tendência de crescente subespecialização (ver seção 3), estudos mostram que a maioria dos pediatras mantém atividades significativas em Pediatria Geral, especialmente nos primeiros anos de carreira ou em cidades menores. Isso ocorre tanto por opção pessoal – muitos apreciam a abrangência da pediatria geral – quanto por necessidade do mercado: fora dos grandes centros, é comum que o pediatra atenda um espectro amplo de casos, não se restringindo a uma só área. Assim, são relativamente poucos os profissionais que atuam exclusivamente como subespecialistas pediátricos no Brasil. Mesmo um cardiologista pediátrico ou neuropediatra, por exemplo, pode dedicar parte do tempo a consultas gerais de crianças, dependendo da demanda local.

No que tange ao perfil dos pacientes, o pediatra lida com todas as faixas etárias da infância e adolescência, enfrentando desafios variados em cada etapa. No período neonatal, prevalecem questões como prematuridade, icterícia, dificuldades de amamentação e triagem de doenças congênitas. Na primeira infância, são comuns as infecções (viroses, otites, pneumonias), distúrbios nutricionais e orientação de desenvolvimento. Em idade escolar, problemas respiratórios (asma, alergias), obesidade infantil e questões comportamentais/educacionais (déficit de atenção, dificuldades escolares) ganham destaque. Na adolescência, o pediatra aborda puberdade, saúde sexual e mental, além de riscos como uso de drogas. Essa abrangência exige atualização constante, pois o conhecimento em saúde infantil evolui rapidamente – novos calendários de vacinação, protocolos de manejo de doenças e até impactos de tecnologias (como cigarro eletrônico, redes sociais na saúde mental etc.). Cada vez mais, famílias valorizam pediatras que atuem de forma multidisciplinar, integrando cuidados físicos e aspectos psicossociais. Em resumo, a rotina pediátrica pode ser tão variada quanto imprevisível, mas invariavelmente focada em promover o bem-estar e o desenvolvimento saudável das novas gerações.

Outro traço do mercado de trabalho é a divisão entre setores público e privado. Uma parcela significativa dos pediatras concentra-se no setor suplementar e consultórios particulares – tendência acentuada justamente nas regiões com maior oferta de profissionais. Isso significa que, embora haja muitos pediatras no país, grande parte atende em clínicas privadas ou hospitais de convênios, o que dificulta o acesso da população que depende exclusivamente do SUS. Essa concentração no privado se explica em parte pelas condições de trabalho e remuneração: pediatras no SUS enfrentam altos volumes de pacientes, infraestrutura nem sempre adequada e salários menos competitivos. Ainda assim, o serviço público é um importante empregador – principalmente via concursos em prefeituras e hospitais universitários – e fundamental para levar cuidados pediátricos às periferias urbanas e interiores. Muitos pediatras optam por uma “dupla militância”, atuando simultaneamente no SUS e no setor privado (consultório ou plantões em hospitais particulares). Essa combinação permite atender a todas as camadas sociais, complementa a renda e traz diversidade à prática profissional.

Cresce a procura por subespecialidades: caminhos de carreira em áreas pediátricas

A Pediatria é uma especialidade por si só abrangente, mas dentro dela existem numerosas áreas de atuação (subespecialidades) que permitem ao médico focar em determinado sistema ou faixa etária específica. O Conselho Federal de Medicina (CFM) reconhece atualmente mais de 20 áreas de atuação em Pediatria (Resolução CFM nº 1.973/2011), incluindo praticamente todas as grandes disciplinas médicas adaptadas ao público infantil. Entre as subespecialidades pediátricas de maior destaque e demanda crescente no Brasil, podemos citar:

  • Neonatologia – cuidados do recém-nascido, especialmente prematuros e doentes críticos nas UTIs neonatais;
  • Alergia e Imunologia Pediátrica – diagnóstico e tratamento de alergias alimentares, asma, rinite, imunodeficiências, etc;
  • Cardiologia Pediátrica – doenças do coração em crianças (cardiopatias congênitas, arritmias pediátricas, insuficiência cardíaca infantil);
  • Pneumologia Pediátrica – problemas respiratórios infantis (asma, bronquite, malformações pulmonares, fibrose cística);
  • Gastroenterologia Pediátrica – distúrbios digestivos, doença do refluxo, alergias alimentares gastrointestinais, doença celíaca, doenças hepáticas pediátricas;
  • Neurologia Pediátrica (Neuropediatria) – transtornos do desenvolvimento neurológico, epilepsias, paralisia cerebral, autismo, TDAH, entre outros;
  • Endocrinologia Pediátrica – distúrbios hormonais em crianças (diabetes tipo 1, problemas de crescimento, puberdade precoce/tardia, hipotireoidismo congênito);
  • Nefrologia Pediátrica – doenças renais e do trato urinário em crianças (malformações, síndrome nefrótica, insuficiência renal);
  • Hematologia e Hemoterapia Pediátrica – anemias, leucemias infantis, coagulopatias e terapia transfusional em crianças;
  • Oncologia Pediátrica – diagnóstico e tratamento de câncer na infância;
  • Infectologia Pediátrica – doenças infecciosas pediátricas complexas, imunizações especiais;
  • Medicina Intensiva Pediátrica – cuidados intensivos gerais (UTI) para crianças;
  • Medicina do Adolescente – atenção direcionada a pacientes dos 10 aos 19 anos, abordando questões próprias da adolescência;
  • Nutrologia Pediátrica – nutrição clínica, acompanhamento de distúrbios alimentares, obesidade infantil, desnutrição;
  • Reumatologia Pediátrica – doenças reumáticas e autoimunes em crianças (artrite idiopática juvenil, lúpus, febre reumática);
  • Ultrassonografia em Pediatria – realização de exames de imagem ultrassonográficos voltados ao público infantil (área de atuação emergente, exigindo treinamento específico).

Essa ampla gama de subáreas reflete tanto a complexidade crescente dos cuidados pediátricos quanto a demanda por especialistas infantis à medida que aumenta a prevalência de certas doenças crônicas e condições específicas na infância. Por exemplo, doenças respiratórias e alérgicas na infância continuam muito frequentes – a asma e a rinite alérgica afetam milhões de crianças – impulsionando a busca por pneumopediatras e alergistas pediátricos. Distúrbios nutricionais e metabólicos, como obesidade infantil (hoje considerada uma epidemia global) e seletividade alimentar, levaram à valorização da nutrologia pediátrica. Na esfera do desenvolvimento, o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) e TDAH (transtorno de déficit de atenção/hiperatividade) em crianças tem crescido – o Censo 2022 do IBGE identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de TEA no Brasil, com maior prevalência entre os mais joven –, o que faz do neuropediatra um profissional cada vez mais requisitado por famílias em busca de orientação e tratamento adequados. Da mesma forma, a melhoria nas taxas de sobrevivência de crianças com condições complexas (ex.: prematuros extremos, cardiopatias congênitas operadas, câncer infantil em remissão) cria demanda por seguimento especializado a longo prazo, justificando a presença de subespecialistas em equipes multidisciplinares.

Os números confirmam esse movimento de subespecialização. Segundo a Demografia Médica 2025, 10,5% de todos os médicos especialistas no país são pediatras, mas dentro da Pediatria há uma diversificação interna em áreas específicas. Por exemplo, existem cerca de 4,4 mil pneumologistas pediátricos registrados (Pneumologia Pediátrica), 5 mil neuropediatras, números ainda modestos mas em crescimento. Vale destacar que algumas subespecialidades pediátricas englobam tanto médicos de formação pediátrica quanto de outras especialidades: a terapia intensiva pediátrica pode atrair também intensivistas gerais com capacitação em pediatria, e a neonatologia às vezes conta com médicos formados em pediatria ou em áreas afins (como anestesistas que atuam em UTI neonatal). Entretanto, a tendência dominante é que o pediatra geral prossiga sua formação em uma área de atuação específica, complementando seus dois ou três anos de residência básica com 1 a 3 anos adicionais de treinamento em programas de subespecialidade.

Formação do subespecialista: residência ou alternativas?

Tradicionalmente, o caminho para se tornar um subespecialista pediátrico envolve, primeiramente, a Residência Médica em Pediatria Geral, seguida pela Residência (fellowship) na área de atuação escolhida. A residência de Pediatria, que tinha duração de 2 anos, foi estendida para 3 anos a partir de 2019 no Brasil, visando equiparar-se a padrões internacionais e permitir formação mais completa. Após completar esses 3 anos e obter o título de especialista em Pediatria (concedido pela SBP/AMB), o médico pode ingressar em um programa de subespecialidade reconhecido pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM). A duração do fellowship varia: subáreas clínicas como Gastro, Nefro, Alergia etc. geralmente são 2 anos adicionais; Neonatologia e Medicina Intensiva Pediátrica duram 1 ano; Oncologia Pediátrica 3 anos, e assim por diante, conforme normatização de cada programa. Ao final, muitos também prestam prova de título específica da área, organizada pela sociedade de subespecialidade afiliada à SBP.

Contudo, nem sempre o profissional segue esse caminho “padrão”, seja por opção ou por indisponibilidade de vagas em residência. Existem caminhos alternativos de formação em subespecialidades pediátricas. Uma possibilidade é cursar uma pós-graduação lato sensu (especialização) reconhecida na área desejada. Várias instituições acadêmicas e hospitais oferecem cursos teórico-práticos em subespecialidades pediátricas, com duração típica de 1 a 2 anos, que conferem certificado de especialista (desde que o médico já tenha titulação em Pediatria Geral). Por exemplo, há pós-graduações em alergia e imunologia pediátrica, em neonatologia, em psiquiatria da infância/adolescência, em nutrologia pediátrica, dentre outras, muitas vezes chanceladas pelo MEC. Embora essas pós não tenham o status de Residência Médica, elas suprem parte da carga teórica e prática e podem preparar o pediatra para atuar na área.

Outra via de qualificação é a experiência prática supervisionada: o pediatra trabalha alguns anos em um serviço especializado (por exemplo, em um centro de cardiologia pediátrica) e acumula casuística suficiente para prestar o Exame de Título de Área de Atuação daquela subespecialidade. A Associação Médica Brasileira (AMB), em conjunto com as sociedades de especialidade, geralmente permite que médicos com experiência comprovada de pelo menos 2 a 4 anos na área e participação em atividades científicas façam a prova de título, mesmo que não tenham feito residência formal naquela área. Assim, um pediatra que não obteve vaga de residência em Endocrinologia Pediátrica, por exemplo, pode ainda tornar-se endocrinologista pediátrico mediante esse caminho alternativo (atuando na área e sendo aprovado no exame da SBP/Sociedade de Endocrinologia).

Importante mencionar que a SBP incentiva a capacitação contínua. Há mais de 270 instituições no Brasil que oferecem residência em Pediatria Geral e, paralelamente, diversos cursos de atualização e aperfeiçoamento disponíveis. Além disso, a SBP e suas filiadas organizam eventos e estágios observacionais (fellow observerships) para difundir conhecimentos de subespecialidade. Nos últimos anos, surgiram até fellowships não oficiais (fellowships institucionais) em algumas áreas – por exemplo, formações em Emergências Pediátricas, Cuidados Paliativos Pediátricos – para suprir lacunas de treinamento formal.

Em suma, embora a via preferencial para subespecialização seja a residência médica credenciada, existem alternativas flexíveis que permitem ao pediatra diversificar sua carreira. Isso é positivo, pois ajuda a atender a demanda por especialistas em locais onde não há programas de residência disponíveis, e possibilita ao profissional ajustar sua formação à sua realidade de trabalho. Naturalmente, independentemente do caminho seguido, manter-se atualizado é mandatório: a evolução rápida da medicina impõe educação continuada, seja via cursos, congressos ou certificações periódicas. Pediatras subespecialistas frequentemente realizam reciclagens e obtêm certificações adicionais (por exemplo, PALS – Pediatric Advanced Life Support – no caso de emergencistas e intensivistas pediátricos, certificados internacionais em áreas como Neurologia Infantil, etc.) para assegurar a qualidade do atendimento.

Quando o amor à profissão encontra o contracheque: remuneração do pediatra

Historicamente, a Pediatria é vista como uma especialidade de baixa remuneração relativa quando comparada a áreas cirúrgicas ou procedimentos intervencionistas. Por ser uma área essencialmente clínica – sem a realização de cirurgias ou procedimentos de alto valor agregado – o rendimento do pediatra depende basicamente do volume de consultas e dos plantões realizados. No entanto, nos últimos anos a remuneração do pediatra melhorou e pode variar significativamente conforme a região do país, o tipo de vínculo empregatício e a carga horária.

Dados do Novo CAGED 2025 compilados pelo Portal Salário mostram que um médico pediatra contratado em regime CLT no Brasil ganha em média cerca de R$ 9.593,51 por mês (jornada média de 22 horas semanais). Esse valor corresponde ao salário-base formal, sem contar adicionais por plantão noturno, insalubridade ou bônus. A pesquisa aponta um piso salarial em torno de R$ 9.331,50 e um teto (percentil superior) chegando a R$ 18.861,54 mensais para pediatras CLT. Ou seja, há pediatras empregados ganhando algo entre 9 e 19 mil reais mensais, dependendo da função e local. Regiões diferentes apresentam médias distintas: por exemplo, nos estados do Centro-Oeste e alguns do Nordeste, os salários médios formais são mais altos – estima-se que Goiás lidera com média em torno de R$ 16 mil, seguido por Distrito Federal e Ceará, entre os melhores mercados para ganhos do pediatra. De fato, somente no DF, a média salarial registrada foi de R$ 12,3 mil para 23h semanais, indicando que capitais e regiões com menor oferta de profissionais acabam pagando mais para atraí-los. Em contrapartida, em estados com grande concorrência de pediatras (como São Paulo), a remuneração média tende a cair para patamares próximos ou abaixo da média nacional (em torno de 8-10 mil).

Além da variação geográfica, o tipo de vínculo impacta diretamente os rendimentos. No setor público (SUS), muitos pediatras são contratados como estatutários ou via CLT municipal/estadual, com salários fixos por carga horária. Uma típica carga de 20 horas semanais em uma prefeitura do Sudeste pode remunerar cerca de R$ 6 a 10 mil mensais, dependendo do município e planos de carreira. Contratos federais, como hospitais universitários, costumam pagar melhor e oferecer adicionais por titulação e tempo de serviço. Por outro lado, os plantões e sobreavisos (principal forma de trabalho emergencial) pagam valores por turno: em serviços de urgência pediátrica, um plantão de 12 horas pode pagar aproximadamente de R$ 700 a R$ 1.200, variando conforme região e se o hospital é público ou privado. Plantões em UTIs neonatais ou pediátricas, que requerem alta especialização, às vezes têm remuneração maior, podendo ultrapassar R$ 1.500/12h em hospitais privados de referência. Muitos pediatras complementam a renda fazendo vários plantões por mês (incluindo finais de semana e noites), o que pode dobrar ou triplicar seus ganhos mensais, porém à custa de carga horária extensa e desgaste pessoal.

No setor privado, há duas realidades principais: a do pediatra contratado (por hospitais, clínicas ou cooperativas) e a do pediatra autônomo em consultório próprio. Pediatras contratados de hospitais privados geralmente recebem salários similares aos da média CLT mencionada (R$ 8-12 mil para meio período, proporcionalmente mais se for 40h). Já quem opta por consultório particular tem uma renda bastante variável conforme o fluxo de pacientes e o tipo de pagamento (convênios ou particular). Consultas pediátricas em clínicas privadas credenciadas por planos de saúde costumam ter valores de repasse relativamente baixos (cada consulta pode render de R$ 50 a R$ 100 via convênio). Portanto, para atingir boa renda, o médico precisa de grande volume de atendimentos diários, o que nem sempre é viável mantendo qualidade. Por isso, alguns pediatras adotam modelo misto – parte convênios, parte pacientes particulares – ou se diferenciam em nichos (por exemplo, atendimento domiciliar concierge, consultoria em amamentação remunerada à parte, etc.). Consultas particulares podem custar entre R$ 200 e R$ 500 nas capitais, e quando o pediatra consegue formar uma clientela fidelizada disposta a pagar, sua remuneração pode superar a média. A pesquisa do Portal Salário indica que profissionais autônomos em cidades de maior poder aquisitivo (como Brasília, Goiânia) conseguem inclusive elevar o valor de consulta após conquistar diferenciais de serviço (como disponibilidade 24h via telefone), aumentando significativamente seus ganhos.

Em termos de subespecialidades, a remuneração pode tanto aumentar quanto diminuir, dependendo da área. Algumas subáreas clínicas não trazem procedimentos adicionais nem plantões extras (por exemplo, reumatologia pediátrica ambulatorial), podendo auferir semelhante a um generalista. Já subespecialistas envolvidos em procedimentos ou em serviços de alta complexidade (cirurgiões pediátricos, intensivistas pediátricos, onco-hematologistas) costumam receber salários maiores, dado o caráter insalubre e escasso dessas funções. Curiosamente, levantamento de um portal de carreiras apontou que pediatras inseridos em programas de saúde coletiva e medicina de família (estratégia de saúde da família, médico sanitarista) figuravam entre os maiores salários médios da medicina – possivelmente por atuarem em gestão pública –, enquanto médico pediatra clínico aparecia com salário médio em torno de R$ 15,5 mil nesse ranking.

Resumindo, o pediatra brasileiro ganha em média de 8 a 12 mil reais mensais, podendo ultrapassar 15-20 mil com acúmulo de funções e experiência, mas essas cifras variam bastante. Regiões Centro-Oeste e Sul tendem a pagar melhor que Sudeste e Nordeste em posições públicas, e capitais melhor que interior em geral. Plantões e trabalhos em UTIs elevam a renda, enquanto consultório particular pode requerer tempo para se tornar lucrativo. Apesar de não estar no topo da pirâmide salarial médica, a Pediatria vem buscando maior valorização financeira. A SBP atua para melhorar honorários de procedimentos pediátricos e negocia com planos de saúde reajustes nas consultas, além de pleitear carreira de estado no SUS para fixar pediatras no interior com salários atrativos. Iniciativas como a da Unimed Goiânia em 2023, que criou um programa de gratificação adicional por procedimento para cooperados pediatras, mostram esforços de incentivar a permanência dos profissionais nessa área tão essencial.

Qualidade de vida do pediatra: desafios, estresse e gratificações

A rotina do pediatra pode ser tanto extenuante quanto recompensadora. Em termos de carga horária, muitos pediatras cumprem jornadas extensas, especialmente aqueles que conciliam múltiplos empregos ou plantões frequentes. É comum que, para atingir renda satisfatória, o profissional realize 60 horas semanais ou mais de trabalho somando atendimentos diurnos e plantões noturnos. Isso naturalmente impõe um nível de estresse elevado. Trabalhar com crianças enfermas envolve não apenas a preocupação médica com o paciente, mas também lidar com a ansiedade e aflição dos pais e familiares. Situações críticas – como emergências em pronto-socorro, ressuscitação de um recém-nascido, diagnósticos graves – podem cobrar um preço emocional significativo do pediatra. Estudos brasileiros apontam que médicos residentes em Pediatria apresentam índices de estresse e sintomas de burnout superiores à média, atribuídos à carga de 60-80 horas semanais e à pressão emocional do cuidado pediátrico. Entre pediatras já formados, o burnout também é reconhecido; fatores como excesso de burocracia, agenda lotada e remuneração vista como aquém do merecido contribuem para a insatisfação em alguns casos.

Entretanto, a qualidade de vida do pediatra não se resume aos desafios. Muitos profissionais destacam as gratificações intrínsecas da especialidade, o que torna a prática altamente satisfatória do ponto de vista pessoal. Cuidar de crianças, vê-las se recuperar e crescer saudáveis sob sua orientação, traz um sentimento de propósito que compensa as dificuldades. Como afirmou um experiente pediatra, “observar os recém-nascidos que vi no primeiro dia de vida irem para a faculdade é uma parte incrivelmente gratificante de ser pediatra”. Poucas profissões permitem acompanhar tão de perto o desenvolvimento de um ser humano e impactar positivamente toda uma família. O pediatra frequentemente se torna uma espécie de “membro da família”, um confidente dos pais para quaisquer questões relacionadas aos filhos – desde dúvidas simples sobre a introdução de alimentos até orientações frente a doenças graves. Essa relação de confiança e vínculo afetivo gera muita satisfação profissional. Ser pediatra é ser um profissional feliz, nas palavras do Dr. José Luiz Setúbal, “pois mesmo que as crianças estejam doentes, elas são resilientes, exalam confiança e alegria” – o que torna o ambiente de trabalho mais leve do que em outras especialidades hospitalares.

Outro aspecto positivo na qualidade de vida é que a Pediatria, por ter grande parcela de atuação ambulatorial, oferece certa flexibilidade de agenda a quem opta por consultório. Diferentemente de cirurgiões ou obstetras, pediatras raramente são acionados de madrugada (exceto os de plantão). Muitos conseguem organizar horários para equilibrar vida pessoal e trabalho, especialmente após os primeiros anos de carreira. Além disso, a Pediatria tem atraído uma porcentagem alta de mulheres – cerca de 76,8% dos pediatras no Brasil são do sexo feminino –, e para muitas médicas a especialidade permite conciliar a maternidade e a profissão de maneira mais harmoniosa, já que é possível, por exemplo, reduzir a carga de plantões e focar em atendimento em horários comerciais conforme a fase de vida. Essa feminização da pediatria trouxe maior discussão sobre condições de trabalho como licença-maternidade, locais de descanso e suporte à saúde mental dos profissionais, melhorias que beneficiam a todos.

Isso não significa que tudo são flores: a cobrança emocional é constante. Pediatras lidam com situações delicadas como perdas de pacientes infantis, o que é sempre impactante. Também enfrentam desafios modernos como a influência da internet nas famílias – por vezes precisam desmistificar fake news sobre vacinas e medicamentos que os pais trazem das redes sociais. A pandemia de COVID-19 adicionou sobrecarga, com necessidade de adaptar atendimentos (teleconsulta, protocolos de segurança) e lidar com consequências indiretas nas crianças (atrasos vacinais, impactos psicológicos). Ainda assim, a percepção geral entre especialistas é que a Pediatria proporciona um alto grau de realização pessoal. Pesquisas de satisfação mostram pediatras relatando grande orgulho de sua profissão e destacando o quanto aprendem diariamente com as crianças (pela criatividade, sinceridade e resiliência que elas demonstram).

Em termos práticos, para garantir melhor qualidade de vida, muitos pediatras buscam diversificar as atividades e evitar sobrecarga num só ambiente. Por exemplo, mesclar dias de consultório (que tendem a ser menos estressantes) com alguns plantões semanais (mais intensos) pode trazer equilíbrio entre variedade de casos e tempo de descanso adequado. Grupos de pediatria e cooperativas também ajudam, dividindo escalas de sobreaviso para que ninguém fique 24h conectado o tempo todo. Além disso, a SBP e associações regionais promovem iniciativas de suporte ao pediatra, incluindo programas de prevenção de burnout, grupos de troca de experiências e mentorias para jovens profissionais – reconhecendo que cuidar do cuidador é fundamental para a manutenção da força de trabalho.

Por fim, vale ressaltar um ponto frequentemente mencionado pelos pediatras como fonte de alegria: a espontaneidade e carinho das crianças. Diferentemente de pacientes adultos, crianças muitas vezes brindam o médico com sorrisos, desenhos de agradecimento, abraços e evoluções surpreendentes. Poder testemunhar a recuperação de uma criança gravemente doente ou simplesmente receber o primeiro convite de aniversário de um pequeno paciente são experiências imensuráveis. Como resumiu uma pediatra do Distrito Federal no Dia do Pediatra: “Cuidar das crianças é uma missão gratificante e desafiadora. Ser pediatra é estar presente em momentos fundamentais da vida de alguém e ver aquele bebê vulnerável tornar-se um jovem saudável… essa troca torna gratificante a jornada”.

O futuro da pediatria: menos crianças, mais tecnologia – riscos e oportunidades

O cenário futuro para a especialidade de Pediatria traz alguns desafios demográficos e tecnológicos, mas também perspectivas promissoras de valorização.

Do ponto de vista demográfico, o Brasil vivencia uma transição: as taxas de natalidade caíram a níveis historicamente baixos (1,57 filho/mulher em 2023) e a proporção de crianças na população total vem diminuindo. Em 2000, cerca de 30% dos brasileiros tinham até 19 anos; em 2022, essa parcela caiu para aproximadamente 21,5%. Isso significa que, a longo prazo, poderemos ter menos pacientes pediátricos absolutos para cuidar. Em algumas décadas, o país terá menos crianças do que hoje, e possivelmente excesso de médicos em certas especialidades se a tendência não for monitorada. Contudo, é importante analisar além dos números brutos: a Pediatria dificilmente perderá sua relevância. Em primeiro lugar, porque cada criança está recebendo mais atenção de saúde do que no passado. Pais com menos filhos tendem a investir mais em cuidados, preocupam-se mais com o desenvolvimento e procuram especialistas diante de qualquer sinal de alerta – isso mantém elevada a demanda por consultas e acompanhamentos por pediatras. Adicionalmente, a redução das taxas de mortalidade infantil e o maior cuidado com doenças crônicas implicam que mais crianças com condições complexas sobrevivem e necessitam acompanhamento prolongado, muitas vezes por subespecialistas. Exemplos incluem bebês prematuros extremos que sobrevivem e precisam de seguimento multiprofissional, ou crianças com síndrome de Down, autismo, paralisia cerebral vivendo mais e melhor, sob supervisão contínua de pediatras.

Outra questão é que a Pediatria expandiu seu escopo: hoje não cuida apenas de doenças, mas também foca em prevenção, orientação de estilo de vida saudável, saúde mental infantil e do adolescente, todos tópicos em ascensão. Com a sociedade dando mais atenção à primeira infância (reconhecendo-a como fase crucial para o desenvolvimento humano) e aos direitos da criança, espera-se que o pediatra seja cada vez mais valorizado como figura central nos cuidados primários de saúde. Políticas públicas tendem a incorporar pediatras em equipes de saúde da família (como discutido na seção 1), e famílias da classe média demandam acompanhamento pediátrico até idades tardias dos filhos (muitos pais hoje mantêm o pediatra como médico do adolescente, preferindo-o em vez de migrar precocemente para clínicos gerais).

Quanto aos avanços tecnológicos, discute-se muito o impacto da Inteligência Artificial (IA) e da telemedicina na prática médica. Poderiam os pediatras ser substituídos por algoritmos ou robôs? A resposta mais provável é não, ou pelo menos não em grau significativo. Estudos recentes reforçam que, embora a IA seja ferramenta promissora, ela está longe de replicar a tomada de decisão clínica humana em pediatria. Um exemplo notável: quando testado em desafios diagnósticos pediátricos complexos, o modelo de linguagem ChatGPT-4 acertou apenas 17% dos casos, falhando em 83% – performance muito inferior à de médicos de verdade. Esse resultado, publicado na revista JAMA Pediatrics, sublinha o “papel insubstituível dos pediatras” na avaliação clínica de crianças. Crianças não são “mini-adultos” – elas apresentam doenças de forma diferente, muitas não conseguem verbalizar sintomas, e dependem de avaliação física minuciosa e interpretação contextual que um algoritmo ainda não consegue realizar plenamente. Além disso, há o aspecto do vínculo e confiança, fundamentais em pediatria: famílias confiam no pediatra como alguém que conhece a criança e sua história, algo que um sistema de IA dificilmente replicará em termos de relação médico-paciente.

Isso não significa que a tecnologia será irrelevante – ao contrário, espera-se que IA e ferramentas digitais auxiliem os pediatras em tarefas como triagem, análise de exames e teleorientação, tornando o trabalho mais eficiente. Por exemplo, já existem aplicativos de triagem pediátrica usando IA para orientar pais sobre gravidade de sintomas, e sistemas de apoio à decisão que ajudam a escolher doses de medicamentos ou identificar padrões em imagens radiológicas. Tais ferramentas podem aumentar a produtividade e ampliar o alcance do pediatra, especialmente via telemedicina para áreas remotas. Mas ao menos no horizonte das próximas décadas, a pediatria continuará sendo uma atividade predominantemente humana, em que a inteligência artificial serve como aliada e não substituta. Como declarou um especialista em congresso recente, “a IA pode analisar dados, mas não substitui o olhar humano na pediatria – o vínculo, a escuta e o toque clínico ainda são insubstituíveis”.

Outra tendência futura a considerar é a integração de novas áreas de conhecimento na prática pediátrica. Temas como genética médica (ex.: aconselhamento genético para doenças raras), medicina do esporte infantil, programação metabólica (epigenética) e saúde digital ganham espaço. O pediatra do futuro precisará navegar também por essas frentes, coordenando cuidados complexos e orientando famílias em um mundo com informações abundantes (e muitas vezes desencontradas). Isso reforça a necessidade de formação sólida e continuada para os profissionais.

Por fim, há o contexto da valorização social da Pediatria. Mesmo com menos crianças, cada vida infantil torna-se ainda mais preciosa para a família e para a sociedade (que enxerga nelas o futuro). Assim, a tendência é que pediatras sejam cada vez mais solicitados para atuarem não apenas em clínicas, mas como consultores de saúde infantil em múltiplos setores – seja em escolas (garantindo ambientes saudáveis), mídia (orientando o público), desenvolvimento de produtos infantis (brinquedos seguros, aplicativos educativos) e políticas públicas (contribuindo para estratégias de promoção da saúde desde cedo). A especialidade também deve se beneficiar do maior reconhecimento econômico: com a escassez relativa que se prevê (menos crianças e possivelmente menos pediatras se não houver estímulo), as leis de mercado podem elevar salários e honorários para atrair médicos ao campo. Assim, paradoxalmente, a queda de natalidade pode levar a melhores oportunidades para os pediatras que permanecerem, com menor concorrência e possivelmente mais investimento per capita na saúde de cada criança.

Em suma, o futuro aponta para uma Pediatria mais tecnológica, mais integrada e possivelmente mais bem remunerada, porém sempre dependente do elemento humano. O pediatra continuará exercendo papel insubstituível de defensor da saúde infantil, navegando por mudanças demográficas e científicas, mas mantendo seu foco na garantia de uma infância saudável para uma sociedade melhor.

Empreendedorismo em pediatria: inovações e casos de sucesso

Além do trabalho tradicional em hospitais e consultórios, muitos pediatras brasileiros têm se destacado pela veia empreendedora, criando clínicas, serviços especializados e plataformas inovadoras voltadas à saúde infantil. Essas iniciativas suprem lacunas do sistema e trazem novas formas de atendimento, muitas vezes capitaneadas por profissionais com visão tanto médica quanto de negócio.

Um exemplo de sucesso é a clínica Port Vitta & Kids, inaugurada em 2021. Idealizada pelo pediatra Dr. Ewerton Vicente Hemerly e um sócio psicanalista, essa clínica cresceu exponencialmente e em menos de dois anos se tornou uma das maiores do país em seu segmento. Com unidades em Cotia (SP) e Vitória (ES), a Port Vitta & Kids reúne 26 especialistas pediátricos, abrange mais de 40 subespecialidades e prima por um atendimento humanizado que fidelizou 73% dos pacientes em rotina de retorno. O caso demonstra como um planejamento eficiente – uso intensivo de agendamento online, gestão financeira automatizada e marketing digital – aliado à paixão pela pediatria pode resultar em um negócio próspero e na ampliação do acesso à saúde infantil de qualidade. Clínicas como essa oferecem consultas ambulatoriais, centro de vacinação, pronto-atendimento pediátrico e até serviços diferenciados (ex: clube de resgate escolar para emergências), mostrando que há espaço para inovação no modelo de atendimento pediátrico privado.

Outro marco de empreendedorismo em Pediatria no Brasil são os hospitais pediátricos de excelência, erguidos muitas vezes pela iniciativa de médicos visionários. O Hospital Sabará, em São Paulo, é um caso emblemático: fundado na década de 1960 por pediatras e filantropos, ele se consolidou como referência nacional em pediatria terciária. Hoje administrado pela Fundação José Luiz Setúbal (presidida pelo pediatra homônimo), o Sabará figura entre os melhores hospitais pediátricos da América Latina e é pioneiro em diversas áreas, como cirurgia robótica pediátrica e pesquisa em doenças raras. A visão do Dr. Setúbal de construir “o melhor hospital para cuidar de crianças” levou à modernização do Sabará e à criação do Instituto PENSI, que promove ensino e investigação em saúde infantil. Similarmente, o Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, tornou-se o maior centro pediátrico do Brasil com forte atuação filantrópica, e nos últimos anos lançou serviços de telemedicina e inovação em parceria com startups. Esses exemplos inspiram outros profissionais a pensar além do consultório individual e empreender em estruturas maiores, ampliando o impacto do seu trabalho.

Na era digital, surgiram também startups de saúde focadas em Pediatria. A Kangoo Saúde, por exemplo, desenvolveu uma plataforma de telemedicina pediátrica via texto (WhatsApp) que oferece orientação 24 horas para famílias, com triagem rápida por enfermeiros e pediatras online. A solução visa reduzir filas e visitas desnecessárias a prontos-socorros, sendo adotada por alguns planos de saúde e municípios. Um dos problemas que a Kangoo se propõe a resolver é justamente a falta de pediatras em regiões afastadas – com o atendimento digital, conseguem levar orientação qualificada a locais sem especialista presente. A startup já colheu resultados, reportando redução de até 80% nas idas ao pronto-atendimento entre usuários e altíssima satisfação (NPS > 90). Esse é um exemplo claro de inovação tecnológica aliada à pediatria, encabeçada por profissionais que identificaram uma demanda (orientação rápida para sintomas infantis) e criaram um serviço escalável e eficiente.

Outras iniciativas incluem plataformas de educação continuada para pediatras – como a Pediatria Digital, que mantém uma comunidade online de atualização científica – e aplicativos voltados a pacientes, como o Pimpos Health, que permite armazenar digitalmente o histórico de saúde da criança e compartilha-lo entre diferentes profissionais. Há também pediatras influenciadores digitais que empreendem na comunicação em saúde, caso da Dra. Paula Sellan, que ganhou notoriedade na TV e redes sociais e inaugurou uma clínica pediátrica integrando conteúdo educacional para pais como parte do serviço.

Merece menção ainda o empreendedorismo social na pediatria. Muitos pediatras dedicam-se a projetos não lucrativos, como organizações de atendimento domiciliar a crianças com condições complexas, ou startups sociais que levam especialidades pediátricas por meio de caravanas a comunidades carentes. Um projeto interessante é o da Instituição Protegendo Anjos, fundada por pediatras no Nordeste, que capacita agentes de saúde locais para reconhecer sinais de alerta em crianças e aciona remotamente especialistas quando necessário, salvando vidas em regiões sem acesso imediato a pediatria.

Em conclusão, a carreira em Pediatria não se limita ao estetoscópio e consultório tradicional. Os pediatras brasileiros vêm demonstrando criatividade e espírito inovador, quer ao montar clínicas multi-serviços, quer ao liderar hospitais de ponta ou lançar plataformas digitais que otimizam cuidados. Esse empreendedorismo, além de trazer realização profissional e potencial financeiro, beneficia enormemente a população pediátrica ao expandir fronteiras de acesso e qualidade. Como disse o Dr. Setúbal, “precisamos de mais de nós (pediatras) para cuidar das futuras crianças”, e cada iniciativa bem-sucedida nesse sentido ajuda a aproximar esse objetivo. A Pediatria, com toda sua relevância humana, também pode ser um campo de inovação e liderança, e os exemplos apresentados apontam para um futuro onde os pediatras serão não apenas profissionais de saúde, mas também agentes de transformação no cuidado infantil.

Conclusão

A carreira em Pediatria no Brasil é marcada pela dedicação científica e humana em prol da saúde das crianças e adolescentes. Enfrenta desafios como distribuição desigual de profissionais, jornadas intensas e reconhecimento financeiro ainda em evolução. Em contrapartida, oferece a recompensa ímpar de ver vidas florescerem saudáveis, de ser parte das famílias e de construir um futuro melhor para a sociedade por meio do cuidado à próxima geração. Os dados atualizados mostram uma especialidade vibrante: números crescentes de pediatras, embora mal distribuídos; um mercado de trabalho aquecido que se diversifica em múltiplos cenários; várias subespecialidades emergindo para atender demandas específicas; e iniciativas de valorização tanto financeiras quanto de qualidade de vida do profissional.

O futuro trará menos crianças, mas não menos importância para o pediatra – seu papel adapta-se com a tecnologia, mas permanece central e insubstituível no cuidado. Cabe às entidades formadoras e à classe médica continuar aprimorando a formação e as condições de trabalho, para que ser pediatra siga sendo, nas palavras de tantos profissionais, “uma missão gratificante e desafiadora”. Se a pediatria brasileira já alcançou reconhecimentos científicos mundiais e melhorou indicadores de saúde infantil ao longo das décadas, muito se deve à paixão e competência de seus profissionais.

Para médicos e estudantes que consideram seguir essa carreira, o recado das evidências e depoimentos é claro: a Pediatria no Brasil oferece múltiplos caminhos de realização, da clínica básica ao empreendedorismo, unindo ciência de ponta e empatia. Não à toa, após períodos de menor procura, a especialidade voltou a atrair jovens – observa-se um aumento do interesse de graduandos por Pediatria nos últimos anos. Afinal, poucos campos da medicina permitem impacto tão direto e duradouro na vida humana quanto cuidar de uma criança.

Em suma, a carreira pediátrica permanece vital e em evolução. Como qualquer área médica, exige estudo árduo, espírito de sacrifício e resiliência. Mas recompensa com sorrisos, desenhos coloridos entregues no consultório e a certeza de estar ajudando a construir gerações mais saudáveis. E como o Brasil é um país que historicamente celebra as crianças, nada mais justo que celebrar e fortalecer também aqueles que dedicam suas vidas a elas: os pediatras.

Referências

  • SCHEFFER, M. (coord.). Demografia Médica no Brasil 2025. Brasília, DF: Ministério da Saúde; Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Associação Médica Brasileira, 2025. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/demografia_medica_brasil_2025.pdf.
  • Folha de Londrina – “Brasil tem pediatras, mas não onde mais se precisa”, 27/07/2025. folhadelondrina.com.br
  • SanarMed – “Pediatria: residência, áreas de atuação, rotina e mais”, 2023. sanarmed.com
  • Blog Saúde Infantil (Instituto PENSI) – “Ser pediatra é ser um profissional feliz”, J.L. Setúbal, 2023. institutopensi.org.br
  • Portal Salário (CAGED 2025) – Perfil e salários de Médico Pediatra (CBO 2251-24). salario.com.br
  • Quero Bolsa – “Quanto ganha um Pediatra? Salário e carreira”, 2025. querobolsa.com.br
  • Exame – “ChatGPT estaria 83% das vezes errado em diagnósticos pediátricos”, 2024. exame.com
  • Doctoralia Pro – “Port Vitta & Kids: história de sucesso”, 2023. pro.doctoralia.com.br
  • KangooSaúde – Plataforma de telemedicina pediátrica (website institucional). kangoosaude.com.br
  • IBGE/Agência CNN – Projeções populacionais e taxa de fecundidade, 2024. cnnbrasil.com.br
  • Sociedade Brasileira de Pediatria – Documentos e notícias institucionais diversos. sbp.com.br




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Dr. Caio Nunes
Dr. Caio Nunes
Radiologia

Graduou-se em Medicina pela Universidade Federal da Bahia (2009). Radiologista pelo Insituto de Radiologia da Universidade de São Paulo. Fellow em Radiologia do Sistema Músculo Esquelético pelo INRAD-FMUSP (2014). É co-fundador da Sanar e CEO do Cetrus.

CRM: 147126 e RQE: 132416

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