A dor é uma das queixas mais frequentes no atendimento de emergência e pode estar presente tanto em situações traumáticas quanto durante procedimentos diagnósticos e terapêuticos. Nesse contexto, os bloqueios de nervos periféricos surgem como uma alternativa para a analgesia de determinadas regiões do corpo. Quando bem indicados, podem permitir o controle da dor de maneira direcionada e, em algumas situações, reduzir a necessidade de medicamentos sistêmicos, especialmente opioides e sedativos.
A anestesia regional guiada por ultrassom, entretanto, exige conhecimento anatômico, domínio da ultrassonografia e treinamento para a execução segura da técnica. Não basta reconhecer a indicação de um bloqueio: é necessário saber identificar as estruturas anatômicas, escolher a abordagem adequada, compreender as características dos anestésicos locais e reconhecer possíveis complicações.
Por isso, a capacitação tem papel importante na formação do profissional que pretende incorporar os bloqueios periféricos à rotina da medicina de emergência.
Por que o emergencista precisa dominar bloqueios de nervos periféricos
No pronto-socorro, algumas situações exigem analgesia rápida e adequada para que o atendimento possa prosseguir. Uma redução de fratura ou luxação, por exemplo, pode ser bastante dolorosa. Da mesma forma, pacientes com determinadas lesões traumáticas podem apresentar dor intensa mesmo durante procedimentos simples.
A anestesia regional permite atuar diretamente sobre a condução da dor em uma determinada região anatômica. Para isso, utiliza-se o bloqueio como parte da estratégia analgésica, de acordo com a condição clínica e com a técnica disponível.
Todavia, a proposta não é substituir todas as demais formas de analgesia, mas reconhecer quando uma abordagem regional pode ser incorporada ao atendimento.
O que muda na analgesia do pronto-socorro: menos opioide, menos sedação
Uma das vantagens é a possibilidade de reduzir a utilização de opioides e os efeitos relacionados à sedação em determinadas situações. Essa característica pode ser relevante em pacientes críticos ou em indivíduos nos quais os efeitos sistêmicos dos medicamentos precisam ser considerados com maior atenção.
Os opioides continuam tendo papel importante no tratamento da dor aguda, mas seu uso pode estar associado a efeitos adversos. Assim, a anestesia regional contribui para uma estratégia multimodal de analgesia, permitindo que o controle da dor seja obtido por diferentes mecanismos e, quando apropriado, com menor necessidade de medicamentos sistêmicos.
É importante, porém, evitar a ideia de que todo bloqueio necessariamente elimina a necessidade de opioides ou sedação. A escolha depende da situação clínica, do procedimento, da região a ser bloqueada, das condições do paciente e da experiência do profissional.
Redução de efeitos colaterais em pacientes críticos
O controle da dor ganha ainda mais importância em pacientes críticos, nos quais determinados medicamentos podem trazer efeitos indesejáveis e dificultar o manejo clínico.
No caso dos opioides, por exemplo, entre os efeitos sistêmicos que merecem atenção estão depressão respiratória, sedação, náuseas e vômitos, prurido, hipotensão e alterações do nível de consciência. Em pacientes vulneráveis, esses efeitos podem interferir na avaliação clínica e aumentar a necessidade de monitorização.
A sedação também pode comprometer a avaliação neurológica e reduzir o nível de consciência, além de exigir cuidados relacionados à manutenção da via aérea e à ventilação.
Por isso, quando um procedimento doloroso pode ser realizado com uma estratégia regional adequada, reduzir a exposição desnecessária a opioides e sedativos pode ser uma vantagem.
Prevenção de complicações secundárias
O controle adequado da dor é importante em pacientes com fraturas de arcos costais, pois a dor pode limitar os movimentos respiratórios e dificultar uma tosse eficaz. Nesse contexto, uma analgesia adequada pode favorecer a ventilação, a expansão pulmonar e a higiene das vias aéreas, ajudando a minimizar os impactos respiratórios associados à dor.
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Quais bloqueios fazem parte do repertório do emergencista
Não existe um único bloqueio aplicável a todas as situações. Assim, a escolha da técnica depende da localização da dor, da estrutura anatômica envolvida, do procedimento que será realizado e das condições clínicas do paciente.
Fáscia ilíaca e femoral na fratura de fêmur
Entre os bloqueios de membros inferiores mais importantes estão as técnicas envolvendo o nervo femoral e a fáscia ilíaca. Esses bloqueios fazem parte do repertório de anestesia regional aplicado às situações clínicas de emergência.
Serrátil anterior na fratura de arcos costais
A parede torácica também integra as técnicas abordadas no treinamento. Entre elas, utiliza-se o bloqueio do plano do serrátil anterior como estratégia para o controle da dor em pacientes com trauma torácico.
Nas fraturas de arcos costais, por exemplo, essa abordagem pode contribuir para a analgesia da região acometida e facilitar a respiração e a mobilização do paciente.
Plexo braquial e bloqueios distais na redução de fraturas e luxações
Nos membros superiores, diferentes abordagens do plexo braquial e bloqueios periféricos distais podem ser utilizados de acordo com a região a ser anestesiada. Entre as principais técnicas estão os bloqueios supraclavicular, interescalênico, infraclavicular e axilar, além das abordagens dos nervos radial, mediano e ulnar.
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Contraindicações e armadilhas: exame neurovascular e risco de síndrome compartimental
Antes da realização de um bloqueio, é fundamental avaliar o estado clínico do paciente e documentar o exame neurovascular da região envolvida. A avaliação deve ser repetida após o procedimento, permitindo identificar alterações que possam estar relacionadas ao trauma ou à própria intervenção.
Em pacientes com trauma, alterações neurológicas e vasculares podem fazer parte da lesão inicial. Por isso, realizar o exame antes do bloqueio ajuda a estabelecer um parâmetro clínico e evita atribuir posteriormente ao procedimento alterações que já estavam presentes.
Além disso, a suspeita de síndrome compartimental merece atenção especial. Nessa situação, o bloqueio pode dificultar o acompanhamento da dor e de outros sinais utilizados na avaliação da evolução do quadro. Assim, a possibilidade dessa complicação deve ser considerada antes da realização da técnica.
Também é necessário reconhecer outras intercorrências relacionadas à anestesia regional, como injeção intravascular ou intraneural, reações alérgicas e toxicidade sistêmica dos anestésicos locais.
Dessa forma, a indicação de um bloqueio exige mais do que identificar a região dolorosa: é necessário avaliar o quadro clínico, conhecer as contraindicações e reconhecer situações em que a técnica pode dificultar ou comprometer o acompanhamento do paciente.
Curva de aprendizado: o que só se desenvolve com prática supervisionada
A anestesia regional guiada por ultrassom envolve habilidades que não são desenvolvidas apenas pela leitura de textos ou pela observação de aulas.
O profissional precisa aprender a selecionar o transdutor, ajustar profundidade e ganho, reconhecer a aparência ultrassonográfica de nervos, músculos, vasos e planos fasciais e compreender artefatos como a anisotropia. Também precisa desenvolver coordenação para manipular o transdutor e acompanhar a agulha durante o procedimento.
Como funciona a capacitação em anestesia regional para emergência do Cetrus
A capacitação em Anestesia Regional Aplicada à Medicina de Emergência do Cetrus foi estruturada para trabalhar tanto os fundamentos quanto a aplicação prática das técnicas.
Entre os conteúdos previstos estão:
- Princípios da ultrassonografia aplicada à anestesia regional;
- Técnicas de alinhamento e agulhamento;
- Anestésicos locais;
- Intoxicação sistêmica por anestésicos locais;
- Adjuvantes e bloqueios de membros superiores, inferiores e parede torácica.
O programa também inclui discussão de casos clínicos, escaneamento em modelos e agulhamento em phantom. A parte prática permite trabalhar habilidades relacionadas à identificação das estruturas anatômicas e ao uso do ultrassom.
Assim, a proposta vai além da apresentação teórica dos bloqueios. O participante entra em contato com a ultrassonografia aplicada à anestesia regional e com etapas técnicas que fazem parte da execução dos procedimentos.
Referências
- Folino TB, Mahboobi SK. Bloqueios Anestésicos Regionais. [Atualizado em 29 de janeiro de 2023]. Em: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; janeiro de 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK563238/
- Wolmarans M, Albrecht E. Regional anesthesia in the emergency department outside the operating theatre. Curr Opin Anaesthesiol. 2023 Aug 1;36(4):447-451. doi: 10.1097/ACO.0000000000001281. Epub 2023 Jun 14. PMID: 37314169; PMCID: PMC10328532.





