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Algumas arritmias fetais podem ser consideradas urgências médicas: entenda seu diagnóstico e manejo

Dra. Marina Zamith, cardiologista e ecocardiografista fetal, explica mais sobre os quadros e sua condução

Dra. Marina Zamith fala sobre arritmias fetais e ecocardiografia fetal

Coração da mãe e o do feto estão sempre interligados, e não estamos falando só metaforicamente: quando pensamos na circulação fetal, ambos os órgãos (além da placenta!) têm papéis importantes. “Por mais que a oxigenação do sangue ocorra na placenta, o coração do bebê é importante para a passagem do fluxo do sangue e sua redistribuição”, explica a cardiologista e ecocardiografista fetal Dra. Marina Zamith, coordenadora da Pós-Graduação Híbrida em Ecocardiografia Fetal do Cetrus.

Por isso, quando o coração do futuro bebê entra em descompasso, é motivo para preocupação. Isso pode acontecer de diversas formas e muitas vezes o quadro pode ser benigno. “Pequenas irregularidades no ritmo cardíaco podem acontecer e não são motivo de preocupação”, considera a especialista. Mas existem duas mais importantes, que são a taquiarritmia (quando as batidas ficam mais aceleradas) e a bradiarritmia (quando estão mais lentas).

Saiba mais sobre quando elas se tornam um problema no bate-papo que tivemos com a Dra. Marina Zamith:

Educa Cetrus: Quando as arritmias do feto são consideradas uma situação de urgência?

Dra. Marina Zamith: As arritmias mais graves, que são as menos frequentes, são as taquiarritmias acima de 200 batimentos por minuto e as bradiarritmias abaixo de 60 a 70 bpm.

As primeiras normalmente são causadas por um defeito realmente elétrico –nesse grupo temos a taquicardia supraventricular e o flutter atrial. Se o coração funciona assim por muito tempo, não conseguirá bombear o sangue adequadamente, o que é uma situação de urgência e requer uma conduta rápida com tratamento.

Já as bradiarritmias são os batimentos muito baixos, como o bloqueio atrioventricular, em que o estímulo elétrico não passa do átrio para o ventrículo, então o último não bate normalmente. São quadros mais relacionados à comorbidades maternas, como as doenças autoimunes.

EC: Quais as complicações mais comumente relacionadas às arritmias fetais?

MZ: Quando pensamos nas taquiarritmias, a frequência cardíaca fica muito alta, o que compromete o funcionamento do coração e até o enchimento das coronárias. Pode até mesmo ocorrer uma isquemia do miocárdio. Além disso, a circulação inadequada pode levar a uma insuficiência cardíaca, em que o coração fica inchado e líquido pode se acumular no abdômen e pulmão do feto.

Já nas bradiarritmias, pensando no bloqueio atrioventricular total, também pode haver o desenvolvimento de uma insuficiência cardíaca. Ocorre dilatação do coração e refluxos nas valvas e isso pode comprometer a circulação fetal como um todo.

As complicações são mais ou menos proporcionais aos casos detectados. O ideal é que sempre as arritmias sejam pegas cedo, nas consultas com o obstetra, durante a ausculta, ou no ultrassom. Se por algum motivo o pré-natal não ocorrer na frequência adequada e houver um intervalo maior entre o início da arritmia e a identificação desse problema, aí o feto será diagnosticado já em uma situação ruim. Mas quando tratada no momento correto o resultado costuma ser muito positivo.

EC: Normalmente, em que fase do pré-natal as arritmias são detectadas?

MZ: As taquiarritmias não têm uma época, mas geralmente surgem depois de 20 semanas de gestação.

Já as bradiarritmias costumam acontecer na janela entre 18 até 22 semanas. Por serem mais comuns em mães que possuem doenças autoimunes como lúpus ou Síndrome de Sjögren, o obstetra ou o reumatologista da paciente deve solicitar o ecocardiograma fetal semanal mais ou menos nessa idade fetal, pois assim o ecocardiografista já pode ir medindo o intervalo PR, detectando precocemente se há um aumento do tempo da passagem do estímulo cardíaco entre o átrio e o ventrículo que seria o bloqueio atrioventricular de primeiro ou segundo grau. Sabe-se que possivelmente o uso de corticoides nessa fase inicial pode evitar um bloqueio total.

No entanto, mesmo no intervalo de uma semana a evolução pode ser rápida. Tanto que há trabalhos norte-americanos em que as mães levam um monitor para casa e acionam seus médicos quando percebem mudanças abruptas. Em um desses trabalhos, de sete casos, 4 foram detectados bem precocemente e com o tratamento não evoluíram para um bloqueio total, mas ainda é uma evidência muito inicial.

EC: E uma vez que as arritmias são identificadas, qual o tratamento?

MZ: O tratamento muda conforme o caso. As taquiarritmias costumam ser tratadas com medicamentos consumidos pela mãe, que são os mesmos utilizados por qualquer pessoa com taquicardia só que em doses mais altas: digoxina, cloridrato de sotalol e cloridrato de amiodarona – além da flecainida, que ainda não foi autorizada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no Brasil. Essas medicações atuam nos feixes de condução e, ou revertem ou diminuem a frequência cardíaca, mas demoram de 5 a 7 dias para começarem a dar resultado. Elas compõem um verdadeiro arsenal, podem ser usadas isoladas ou associadas e hoje ainda não sabemos se uma é mais eficiente do que a outra, mas existem estudos multicêntricos de larga escala buscando definir qual atua melhor em qual situação. Em casos mais graves, há a opção de administrar a medicação direto no bebê.

Já o bloqueio atrioventricular total é uma lesão fixa, então a medicação não adiantaria (ao menos no caso dos já citados bloqueios de primeiro e segundo grau nos quais os corticoides poderiam ajudar na prevenção). O tratamento hoje é o marca-passo no bebê, após o nascimento. Temos no Brasil um pesquisador que desenvolveu um marca-passo intrauterino, mas como é um procedimento invasivo, indicamos quando a frequência está muito baixa e o bebê ainda é muito prematuro para nascer.

EC: Sabemos que de modo geral a ecocardiografia fetal não é tão feita aqui no Brasil. Isso faz com que muitos casos de arritmia também não sejam diagnosticados intraútero?

MZ: Não, já que quando a paciente vai ao obstetra ele ausculta, além de ser um fator obrigatório no ultrassom fetal uma avaliação mínima do coração, mesmo que sem o Doppler. Os casos de bradiarritmias costumam ser encaminhados por prevenção de mães com doenças autoimunes diagnosticadas. Já as taquiarritmias precisam da atenção do obstetra para sua detecção precoce.

EC: As arritmias podem estar associadas a defeitos cardíacos?

MZ: Em geral as taquiarritmias não são associadas a defeitos, mas se o feto possui alguma malformação que cause dilatação do átrio, como a anomalia de Ebstein ou algum tumor cardíaco é importante ficarmos atentos ao desenvolvimento desse tipo de arritmia.

Já o bloqueio atrioventricular o mais comum é o coração estar normal e o problema ocorrer devido à doença de base da mãe. Mas algumas cardiopatias, como isomerismos ou a transposição dos grandes vasos corrigida, podem cursar com a redução da frequência cardíaca fetal, mas na grande maioria dos casos o coração é estruturalmente normal.

6 Replies to “Arritmia fetal: entenda causas de taquicardia e bradicardia em bebês”

  1. Estou com 31 semana de gestação, e fiz a ultrassom hoje e o coração do nenem estava a 181 bpm.
    Estava muito acelerado, oque devo fazer?

    1. Estou na mesma situação com 37 semanas, ultrapassa os 182bpm mas nunca é inferior a 160bpm. Se quiser compartilhar experiências me chama (63)981448474

  2. Minha filha está com 3 dias de vida, ao nascer não respirou bem precisando de auxílio. Seus batimentos cardíacos ficam oscilando de 74 a 112 bpm,
    Meu bebê tem bradicardia? Esse seria o caso do marcapasso?

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