O que é feto PIG e qual a diferença para restrição de crescimento fetal?
SGA (Small for Gestational Age) ou PIG (Pequeno para Idade Gestacional) descreve um recém-nascido com peso ao nascer abaixo de um determinado percentil para a idade gestacional. A definição mais utilizada é peso abaixo do percentil 10, sendo o SGA severo aquele com peso abaixo do percentil 3.
Restrição de crescimento fetal (RCF ou FGR) é uma condição patológica na qual o feto não atinge seu potencial genético de crescimento, geralmente por insuficiência placentária. A distinção é clinicamente importante:
- PIG constitucional (~50-70% dos SGA): feto geneticamente pequeno, com crescimento proporcional e Doppler normal. Não apresenta risco elevado de desfecho adverso.
- RCF verdadeira (~30-50% dos SGA): feto com restrição patológica, frequentemente com Doppler anormal (IP umbilical elevado, redistribuição cerebral). Risco aumentado de natimorto, prematuridade e morbidade neonatal.
O rastreamento de primeiro trimestre identifica gestações de risco para SGA, mas não diferencia entre PIG constitucional e RCF — essa distinção é feita no acompanhamento ultrassonográfico seriado.
SGA é definido como peso ao nascer abaixo do percentil 10 para a idade gestacional; SGA severo é abaixo do percentil 3.
50-70% dos fetos SGA são constitucionalmente pequenos e saudáveis; 30-50% têm restrição de crescimento patológica por insuficiência placentária.
A diferenciação entre PIG constitucional e RCF verdadeira é feita por avaliação seriada de crescimento e Doppler, não pelo rastreamento de primeiro trimestre.
Quais marcadores são usados no rastreamento de SGA no primeiro trimestre?
O modelo de predição de SGA utiliza os mesmos marcadores do rastreamento de pré-eclâmpsia, pois ambas as condições compartilham fisiopatologia placentária.
Quais são os fatores maternos do risco a priori?
Na calculadora, a parte materna do risco usa seis fatores, com coeficientes próprios da ferramenta.
- Idade materna, e o risco sobe um pouco a cada ano
- IMC, calculado do peso e da altura, e o risco sobe com o IMC. Na literatura o IMC baixo também se associa a PIG, e esse efeito não está na conta
- Origem racial, com acréscimo para as origens afro-caribenha, leste-asiática, sul-asiática e mista
- Tabagismo, fator de risco importante, que reduz o peso ao nascer em cerca de 200 g em média
- Hipertensão crônica, associada a insuficiência placentária e PIG
- Paridade, com o mesmo acréscimo para a nulípara e para a multípara com PE prévia, e nenhum para a multípara sem PE prévia
PIG em gestação anterior não é perguntado e não entra no risco.
Quais marcadores biofísicos são avaliados?
Dois marcadores biofísicos medidos entre 11 e 13+6 semanas.
- PAM (pressão arterial média), aferida com protocolo padronizado, repouso de 5 minutos e duas medidas em cada braço. PAM elevada se associa a maior risco de PIG de origem placentária.
- IP médio das artérias uterinas, medido por Doppler. IP elevado reflete resistência placentária aumentada.
Quais marcadores bioquímicos são utilizados?
Dois marcadores bioquímicos dosados no sangue materno:
- PAPP-A (proteína plasmática A associada à gravidez) — níveis baixos (MoM < 0,4) associados a SGA, PE e perda gestacional. Produzida pelo trofoblasto, reflete função placentária.
- PLGF (fator de crescimento placentário) — níveis baixos indicam disfunção placentária. É o marcador bioquímico com melhor desempenho para predição de SGA e PE.
Ambos são convertidos em MoM ajustados para idade gestacional, peso materno, etnia, tabagismo e método de concepção.
Como a calculadora estima o risco de PIG (SGA)?
Esta calculadora usa uma regressão logística aproximada, com coeficientes próprios e sem validação publicada. Ela não é o modelo de riscos competitivos da FMF.
- Fatores maternos. Idade, IMC, origem racial, tabagismo, hipertensão crônica e paridade entram no logit. A multípara com PE prévia recebe o mesmo termo da nulípara, porque o efeito próprio da PE prévia no modelo FMF não está publicado de forma acessível.
- Marcadores. Cada marcador informado soma ao logit o logaritmo de uma razão de verossimilhança aproximada, MoM elevado a um expoente próprio. O MoM do IP das uterinas usa a mediana da FMF para o primeiro trimestre (Tayyar 2015). O MoM da PAM usa uma mediana aproximada por IMC e IG, que não é a da FMF. PAPP-A e PlGF entram como o MoM do laboratório.
- Risco. O logit vira probabilidade de PIG abaixo do percentil 10 em qualquer idade gestacional do parto, mostrada como 1 em N.
Marcador não informado não muda o risco.
Esta calculadora de PIG é uma estimativa aproximada e não o modelo de riscos competitivos da FMF.
Os marcadores entram como razões de verossimilhança somadas na escala do logit, nunca multiplicando a probabilidade.
Marcadores não informados não mudam o risco estimado.
Qual a taxa de detecção do rastreamento para SGA?
| Ferramenta | Desfecho | Desempenho publicado | Observação |
|---|---|---|---|
| Esta calculadora | PIG abaixo do percentil 10 em qualquer IG | Nenhum, coeficientes próprios | Estimativa aproximada |
| Modelo FMF de riscos competitivos (Papastefanou 2020 e 2021) | PIG abaixo do p10 e do p3 com parto antes de 37 e de 32 semanas | Nos artigos originais | Não implementado aqui |
Esta calculadora não tem taxa de detecção publicada, e por isso não deve ser usada para prometer desempenho. Nos modelos da FMF a detecção é maior para PIG com parto pré-termo do que para PIG a termo, porque o PIG pré-termo tem mais relação com insuficiência placentária, a mesma fisiopatologia que os marcadores captam.
Qual a relação entre SGA e pré-eclâmpsia?
SGA e pré-eclâmpsia compartilham a mesma fisiopatologia de base: invasão trofoblástica deficiente e remodelamento inadequado das artérias espiraladas, resultando em insuficiência placentária. Essa sobreposição tem implicações práticas importantes:
- Mesmos marcadores — PAM, UTPI, PAPP-A e PLGF estão alterados em ambas as condições
- Mesma janela de rastreamento — ambas são rastreadas entre 11-13+6 semanas
- Coexistência frequente — 25-30% dos casos de PE pré-termo cursam com SGA concomitante
- Rastreamento simultâneo — os modelos FMF para PE e SGA utilizam os mesmos dados de entrada e podem ser calculados na mesma consulta
A aspirina em baixa dose (150mg/noite), que reduz o risco de PE pré-termo em ~62%, pode ter efeito protetor secundário em SGA associado a PE, embora seu benefício isolado para SGA sem PE não esteja claramente demonstrado.
SGA e pré-eclâmpsia compartilham fisiopatologia placentária e podem ser rastreados simultaneamente com os mesmos marcadores.
25-30% dos casos de pré-eclâmpsia pré-termo cursam com SGA concomitante.
A aspirina em baixa dose reduz o risco de PE pré-termo em ~62%, com potencial benefício secundário em SGA associado a PE.
O que fazer quando o risco de SGA é alto?
Gestantes identificadas como alto risco para SGA no primeiro trimestre devem receber vigilância fetal intensificada:
- Avaliações seriadas de crescimento — ultrassom biométrico a cada 2-4 semanas, iniciando entre 24-28 semanas, com cálculo de peso fetal estimado e percentil
- Doppler seriado — artéria umbilical, artéria cerebral média e razão cerebroplacentária (RCP). A sequência de deterioração típica é: IP umbilical elevado → redistribuição cerebral → fluxo diastólico ausente/reverso
- Avaliação de líquido amniótico — oligoâmnio pode ser sinal de insuficiência placentária
- Considerar aspirina — se houver risco concomitante de PE, iniciar aspirina 150mg/noite antes de 16 semanas
- Planejamento do parto — SGA com Doppler normal: parto entre 37-39 semanas. RCF com Doppler anormal: parto antecipado conforme gravidade (34-37 semanas para IP umbilical elevado; antes de 34 semanas se fluxo diastólico ausente/reverso)
A detecção precoce de SGA com vigilância adequada reduz o risco de natimorto em até 50% em comparação com casos não detectados antenatalmente.
A vigilância de gestações de alto risco para SGA inclui ultrassom biométrico a cada 2-4 semanas e Doppler seriado a partir de 24-28 semanas.
A detecção antenatal de SGA com vigilância adequada reduz o risco de natimorto em até 50%.
SGA com Doppler normal: parto entre 37-39 semanas. RCF com Doppler anormal: parto antecipado conforme gravidade.
Quais são as limitações do rastreamento de SGA no primeiro trimestre?
O rastreamento de PIG tem limitações importantes na prática clínica.
- Estimativa aproximada. Esta calculadora usa coeficientes próprios, sem validação publicada, e não o modelo da FMF
- Desfecho pouco específico. O número é para PIG abaixo do percentil 10 em qualquer IG, e boa parte desses recém-nascidos é constitucionalmente pequena
- Não diferencia PIG constitucional de RCF patológica. A distinção vem do acompanhamento com biometria e Doppler
- Curvas de peso ao nascer. O percentil depende da curva de referência usada
- Não é diagnóstico. É uma estimativa de probabilidade que ajuda a definir a intensidade da vigilância
- Intervenção limitada. Diferente da PE, não há intervenção comprovada que previna PIG isolado
Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre PIG e restrição de crescimento fetal?
PIG (pequeno para idade gestacional) é um termo descritivo que define peso ao nascer abaixo do percentil 10 para a idade gestacional. Restrição de crescimento fetal (RCF ou FGR) é uma condição patológica na qual o feto não atinge seu potencial genético de crescimento, geralmente por insuficiência placentária. Cerca de 50-70% dos fetos PIG são constitucionalmente pequenos e saudáveis, com Doppler normal e desfecho favorável. Os 30-50% restantes têm RCF verdadeira, com risco aumentado de natimorto e morbidade neonatal. O rastreamento de primeiro trimestre identifica risco de SGA global, mas a diferenciação entre PIG constitucional e RCF é feita no acompanhamento com ultrassom seriado e Doppler.
Esta calculadora usa o modelo de riscos competitivos da FMF para PIG?
Esta calculadora não usa o modelo de riscos competitivos da FMF. Ela soma num logit os fatores maternos (idade, IMC, origem racial, tabagismo, hipertensão crônica e paridade, com a PE prévia contando como a nulípara) e, quando informados, o logaritmo de razões de verossimilhança aproximadas de PAM, IP das uterinas, PAPP-A e PlGF. Os coeficientes são próprios da ferramenta e não têm validação publicada. Marcador não informado não muda o risco.
O que fazer se o risco de SGA for alto?
Gestantes identificadas como alto risco para SGA devem ter vigilância fetal intensificada: ultrassom biométrico a cada 2-4 semanas a partir de 24-28 semanas, Doppler seriado de artéria umbilical e cerebral média, e monitoramento do líquido amniótico. Se houver risco concomitante de pré-eclâmpsia, iniciar aspirina 150mg/noite antes de 16 semanas. O timing do parto depende do Doppler: SGA com Doppler normal → parto entre 37-39 semanas; RCF com Doppler anormal → parto antecipado conforme gravidade. A detecção antenatal com vigilância adequada reduz o risco de natimorto em até 50%.
O rastreamento de SGA e pré-eclâmpsia podem ser feitos juntos?
Sim, e essa é uma das grandes vantagens do modelo FMF. O rastreamento de PE e SGA no primeiro trimestre utiliza exatamente os mesmos marcadores — fatores maternos, PAM, UTPI, PAPP-A e PLGF — e pode ser calculado na mesma consulta, entre 11+0 e 13+6 semanas. Ambas as condições compartilham fisiopatologia placentária (invasão trofoblástica deficiente), o que explica a sobreposição de marcadores e a coexistência frequente: 25-30% dos casos de PE pré-termo cursam com SGA concomitante.
A aspirina previne SGA assim como previne pré-eclâmpsia?
A aspirina em baixa dose (150mg/noite) tem eficácia comprovada na prevenção de PE pré-termo, com redução de ~62% no risco. Para SGA isolado (sem PE concomitante), o benefício da aspirina não está claramente demonstrado. Entretanto, como SGA e PE compartilham fisiopatologia placentária e frequentemente coexistem, a aspirina pode ter benefício secundário em SGA de origem placentária associado a PE. A recomendação atual é iniciar aspirina quando há risco elevado de PE — o potencial benefício para SGA é considerado adicional, não indicação primária.
Qual a diferença entre SGA abaixo do 3º e do 10º percentil?
PIG abaixo do 10º percentil inclui todos os recém-nascidos com peso abaixo do esperado para a IG, e uma proporção significativa é constitucionalmente pequena. PIG abaixo do 3º percentil tem maior probabilidade de representar restrição de crescimento patológica e se associa mais a natimorto, internação em UTI neonatal e sequelas neurológicas. Esta calculadora estima só o risco abaixo do 10º percentil, porque não há modelo publicado acessível para o 3º percentil.
Posso calcular o risco de SGA sem os marcadores bioquímicos?
Sim. A calculadora aceita só os fatores maternos, e cada marcador informado ajusta a estimativa. Marcador não informado não muda o risco. Como os coeficientes são próprios da ferramenta, não há taxa de detecção publicada para cada combinação.
O tabagismo influencia o risco de SGA?
Sim, o tabagismo é um dos fatores de risco mais importantes para SGA. Gestantes fumantes têm risco 2-3 vezes maior de ter um bebê PIG, com redução média de ~200g no peso ao nascer. O tabagismo causa vasoconstrição placentária, reduz o fluxo sanguíneo uteroplacentário e prejudica a transferência de nutrientes e oxigênio. Na calculadora o tabagismo soma ao logit dos fatores maternos, e PAPP-A e PlGF entram como o MoM do laboratório, que já deve vir corrigido para o tabagismo.
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Referências científicas
- . Competing risks model for prediction of small for gestational age neonates from maternal characteristics and medical history. Ultrasound Obstet Gynecol; 2020; 56:196-205. doi:10.1002/uog.22129
- . Competing-risks model for prediction of small-for-gestational-age neonates from maternal characteristics, serum PAPP-A and PlGF at 11-13 weeks' gestation. Ultrasound Obstet Gynecol; 2021; 57:392-400.
- . Uterine artery pulsatility index in the three trimesters of pregnancy: effects of maternal characteristics and medical history. Ultrasound Obstet Gynecol; 2015; 45:689-697. doi:10.1002/uog.14789
- . External validation and comparison of Fetal Medicine Foundation competing-risks model for small-for-gestational-age neonate in the first trimester: multicenter cohort study. Ultrasound Obstet Gynecol; 2025; 65:729-737. doi:10.1002/uog.29219
