O que o IP da artéria uterina reflete sobre a placentação?
O IP da artéria uterina é um indicador direto da resistência vascular do leito uteroplacentário. Durante a placentação normal:
- O trofoblasto extravilositário invade as artérias espiraladas do miométrio entre 8 e 18 semanas.
- Essa invasão destrói a camada muscular das artérias, convertendo-as de vasos de alta resistência em vasos de baixa resistência e alto fluxo.
- O resultado é a queda progressiva do IP uterino ao longo da gestação.
Quando a placentação é deficiente, as artérias espiraladas mantêm sua camada muscular, permanecendo vasos de alta resistência. Isso resulta em IP uterino persistentemente elevado e está na base fisiopatológica da pré-eclâmpsia e da RCF de início precoce.
O IP da artéria uterina reflete a resistência vascular do leito placentário — sua queda ao longo da gestação indica remodelamento adequado das artérias espiraladas.
Placentação deficiente resulta em IP uterino persistentemente elevado e é a base fisiopatológica da pré-eclâmpsia e da RCF precoce.
Qual o IP normal das artérias uterinas e quando está elevado?
O UTPI (IP médio das artérias uterinas) diminui progressivamente com a IG. Valores da Tabela 2 de Gómez 2008.
| Idade gestacional | p5 | Mediana | p95 |
|---|---|---|---|
| 12 semanas | 1,11 | 1,68 | 2,53 |
| 16 semanas | 0,89 | 1,33 | 1,99 |
| 20 semanas | 0,74 | 1,10 | 1,61 |
| 24 semanas | 0,64 | 0,93 | 1,35 |
| 30 semanas | 0,54 | 0,77 | 1,10 |
| 36 semanas | 0,48 | 0,68 | 0,95 |
| 40 semanas | 0,47 | 0,65 | 0,90 |
A calculadora usa a equação do mesmo artigo, com a IG em dias, que difere da tabela em até 0,02 porque os coeficientes foram publicados arredondados.
O ponto de corte é o p95. Acima dele o UTPI está aumentado, com risco maior de PE e RCF, e pede avaliação no contexto do modelo de risco. Gómez publica só os centis 5 e 95, então a calculadora não tem degrau acima do p95.
O z-score permite comparação padronizada independente da IG. Z = (ln(UTPI) − ln(Média)) / DP, com a média e o DP em ln dados pela IG em dias.
UTPI acima do percentil 95 para a IG indica resistência placentária aumentada e risco elevado de pré-eclâmpsia e RCF.
A mediana do UTPI cai de 1,68 às 12 semanas para 0,65 às 40 semanas (Gómez 2008).
Qual o papel do UTPI no rastreamento de pré-eclâmpsia?
O UTPI é um dos quatro marcadores biofísicos do modelo de rastreamento de PE da FMF (algoritmo de riscos competitivos). O modelo combina:
- Fatores maternos: idade, IMC, paridade, história de PE, hipertensão crônica, diabetes, método de concepção
- Pressão arterial média (PAM): medida padronizada em ambos os braços
- UTPI: IP médio das artérias uterinas
- Bioquímica: PAPP-A e/ou PlGF sérico materno
O resultado é um risco individualizado de PE pré-termo (<37 semanas) e PE precoce (<34 semanas). Quando o risco é ≥ 1:100 para PE pré-termo, a intervenção com aspirina 150mg/noite iniciada antes de 16 semanas reduz o risco de PE pré-termo em ~62% (estudo ASPRE).
O UTPI isolado não define a conduta — é o modelo integrado que determina o risco.
No modelo FMF de rastreamento de PE, o UTPI é combinado com fatores maternos, PAM e bioquímica para calcular risco individualizado.
Aspirina 150mg/noite iniciada antes de 16 semanas reduz o risco de PE pré-termo em aproximadamente 62% em gestantes de alto risco (estudo ASPRE).
Como medir corretamente o IP da artéria uterina?
A técnica de medição varia conforme a idade gestacional:
Primeiro trimestre (11-13+6 semanas):
- Corte sagital do colo uterino com Doppler colorido
- Identificar a artéria uterina ao nível do orifício interno cervical
- Posicionar o volume de amostra sobre o vaso e obter espectro Doppler
- Medir o IP de ambos os lados (direito e esquerdo)
- Calcular a média aritmética dos dois IPs
Segundo e terceiro trimestres:
- Corte oblíquo na fossa ilíaca, identificando o cruzamento da artéria uterina com a artéria ilíaca externa
- Posicionar o volume de amostra 1 cm após o cruzamento (porção ascendente)
- Medir IP bilateralmente e calcular a média
Cuidados importantes:
- Sempre medir ambos os lados — não usar IP unilateral
- Ângulo de insonação < 30°
- Não confundir com artéria arqueada (calibre menor, localização diferente)
O UTPI é a média do IP das artérias uterinas direita e esquerda — nunca usar medição unilateral.
No primeiro trimestre, a artéria uterina é identificada ao nível do orifício interno cervical em corte sagital com Doppler colorido.
UTPI elevado no segundo e terceiro trimestre: qual o significado?
O UTPI elevado após o primeiro trimestre tem significado clínico diferente conforme o contexto:
- UTPI >p95 no segundo trimestre (20-24 sem): associado a risco aumentado de PE tardia e RCF. Pode justificar vigilância reforçada, mas a janela de prevenção com aspirina já passou.
- UTPI >p95 no terceiro trimestre: em gestante com RCF já diagnosticada, corrobora a etiologia placentária. Não altera o momento do parto (determinado pelo Doppler fetal).
- UTPI >p95 persistente sem PE ou RCF: pode ocorrer sem desenvolvimento de doença — o valor preditivo positivo isolado é limitado.
A principal janela de ação é o primeiro trimestre, quando o resultado pode motivar início de aspirina profilática antes de 16 semanas.
Perguntas Frequentes
Como medir corretamente o IP da artéria uterina no primeiro trimestre?
No primeiro trimestre (11-13+6 semanas), posicionar o transdutor em corte sagital do colo uterino e identificar a artéria uterina ao nível do orifício interno com color Doppler. Posicionar o volume de amostra sobre o vaso, obter espectro com pelo menos 3 ondas uniformes e medir o IP. Repetir do lado contralateral. O UTPI é a média aritmética do IP direito e esquerdo. O ângulo de insonação deve ser < 30°.
Por que o IP uterino diminui ao longo da gestação?
Durante a placentação normal, o trofoblasto extravilositário invade as artérias espiraladas do miométrio entre 8 e 18 semanas, destruindo sua camada muscular e transformando-as em vasos de baixa resistência. Isso permite aumento progressivo do fluxo sanguíneo para o espaço intervilositário e resulta na queda da mediana do IP de 1,68 às 12 semanas para 0,65 às 40 semanas (Gómez 2008).
IP uterino alto sempre significa que vou ter pré-eclâmpsia?
Não. O UTPI elevado (>p95) indica placentação deficiente e aumenta o risco de PE, mas o valor preditivo positivo isolado é limitado. Muitas gestantes com UTPI elevado não desenvolvem PE. No modelo FMF, o UTPI é combinado com fatores maternos, PAM e bioquímica para calcular um risco individualizado. Somente o risco integrado determina a conduta (ex: aspirina profilática).
O que é o modelo de riscos competitivos da FMF para pré-eclâmpsia?
O modelo de riscos competitivos da FMF calcula a probabilidade de desenvolver PE antes de cada semana gestacional (ex: PE <34 sem, PE <37 sem), em vez de um risco binário. Integra fatores maternos (idade, IMC, paridade, história de PE), pressão arterial média, UTPI e marcadores bioquímicos (PAPP-A, PlGF). Quando o risco de PE pré-termo é ≥ 1:100, a prescrição de aspirina 150mg/noite antes de 16 semanas reduz o risco em ~62%.
A incisura diastólica na artéria uterina ainda é utilizada?
A incisura diastólica (notch) foi historicamente o principal marcador do Doppler uterino, mas é qualitativa (presente/ausente) e subjetiva. O IP é quantitativo, reprodutível e permite cálculo de z-score e percentil. Atualmente, a FMF e a ISUOG recomendam o IP como parâmetro padrão. A incisura pode persistir normalmente até 24-26 semanas, gerando falso-positivos se usada isoladamente.
UTPI elevado no segundo trimestre: ainda é útil?
Sim, mas com aplicação diferente. No segundo trimestre, UTPI >p95 mantém associação com PE e RCF, mas a janela de prevenção com aspirina (antes de 16 semanas) já passou. O achado justifica vigilância reforçada (avaliação de crescimento fetal a cada 3-4 semanas, monitorização de PA) e pode direcionar investigação complementar, mas não altera a estratégia de prevenção primária.
Leitura Recomendada
Artigos do Educa Cetrus relacionados a esta calculadora
Referências científicas
- . Reference ranges for uterine artery mean pulsatility index at 11-41 weeks of gestation. Ultrasound Obstet Gynecol; 2008; 32:128-132. doi:10.1002/uog.5315
