Doença hepática gordurosa não alcoólica: como detectar

Ilustração destacando fígado humano

Índice

Tudo que você precisa saber sobre a doença hepática gordurosa não alcoólica: quando suspeitar, quais exames solicitar e como detectar. 

 A Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica (DHGNA) tem emergido como uma das principais causas de doença hepática crônica em todo o mundo, desafiando a comunidade médica com sua prevalência crescente e impacto substancial na saúde pública. 

Este texto visa fornecer uma visão abrangente sobre a detecção da DHGNA, destacando métodos diagnósticos, considerações clínicas e estratégias para abordagem terapêutica.

Doença hepática gordurosa não alcoólica: o que é e epidemiologia

A DHGNA é definida pela acumulação de gordura no fígado, conhecida como esteatose, em pessoas que não têm um histórico de consumo substancial de álcool ou outras condições hepáticas que causem o acúmulo secundário de gordura no órgão.

Esta doença está associada à Síndrome Metabólica, Diabetes mellitus tipo 2, obesidade e/ou dislipidemia e afeta uma parcela significativa da população global. Sua prevalência varia geograficamente e de acordo com os fatores de risco populacionais, sendo alarmante em muitos casos. É encontrada principalmente em pacientes industrializados ocidentais.

A maioria dos pacientes são diagnosticados entre 40 e 50 anos e tem uma maior prevalência no sexo feminino. 

Se não for identificada e tratada precocemente, a DHGNA pode progredir para estágios avançados, incluindo cirrose hepática, insuficiência hepática e aumento do risco de carcinoma hepatocelular.

Subtipos da doença hepática gordurosa não alcoólica

A DHGNA é dividida em dois subtipos:

  • Fígado gorduroso não alcoólico (NAFL): sem evidência de inflamação.
  • Esteato-hepatite não alcoólica (NASH): forma mais grave, que pode ter como desfecho o carcinoma hepatocelular. É o subtipo inflamatório, com presença de esteatose, balonização de hepatócitos e inflamação lobular, podendo ou não estar associada à fibrose. 

DHGNA é uma das doenças hepáticas mais comuns no mundo. Acredita-se que cerca de 25% da população mundial tenha o diagnóstico de Fígado gorduroso não alcoólico (NAFL) e desses, cerca de 20% vão evoluir para o Esteato-hepatite não alcoólica (NASH)

Considera-se a NASH como uma das principais indicações para transplante hepático em mulheres, ficando atrás apenas do alcoolismo. 

Leia também: Hepatopatias: o que são, sintomas, diagnóstico e mais

Nova nomenclatura

Recentemente, foi criado a nomenclatura MAFLD (doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica). Define-se como um conjunto de critérios positivos que consiste na presença de esteatose hepática associada à:

  • Obesidade 
  • Diabetes mellitus tipo 2
  • OU pelo menos 2 fatores de risco metabólito. 

Na figura abaixo é possível conferir os novos critérios diagnósticos: 

Imagem I: Novos critérios para o diagnóstico de DHGNA. Fonte: Queiroz et al, 2023. 

Fatores de risco e etiologia da Doença hepática gordurosa não alcoólica

Os principais fatores de risco para DHGNA são: 

  • Obesidade central
  • Diabetes Mellitus tipo 2
  • Dislipidemia 
  • Doenças cardiovasculares
  • Síndrome Metabólica
  • Resistência insulínica
  • Hipertensão arterial sistêmica
  • Síndrome dos ovários policísticos 
  • Hipotireoidismo
  • Apneia obstrutiva do sono
  • Hipopituitarismo
  • Hipogonadismo. 

Além disso, algumas pesquisas mostram que os produtos químicos, medicamentos e anabolizantes também estão associados aos fatores de risco desta doença. Estes levam o nome de TASH (Esteato-hepatite associada a toxicidade). 

A etiologia da doença tem relação com fatores genéticos, epigenéticos, comportamentais, etc. 

Fisiopatologia

A patogênese da DHGNA é multifacetada e ainda não está completamente elucidada, mas envolve uma interação complexa entre fatores genéticos, metabólicos, ambientais e inflamatórios.  Os principais mecanismos envolvidos são: 

Acúmulo de Gordura no Fígado (Esteatose Hepática)

O primeiro estágio da DHGNA é a esteatose hepática, caracterizada pelo acúmulo excessivo de triglicerídeos nos hepatócitos. Isso ocorre devido a um desequilíbrio entre a captação, síntese e exportação de ácidos graxos pelo fígado, levando a uma acumulação de lipídios intracelulares.

Resistência à Insulina e Lipotoxicidade

A resistência à insulina desempenha um papel central na patogênese da DHGNA, levando a um aumento na lipólise nos tecidos adiposos e aumento da disponibilidade de ácidos graxos ao fígado. Esses ácidos graxos, quando em excesso, podem causar lipotoxicidade, resultando em lesão oxidativa, estresse do retículo endoplasmático e inflamação.

Inflamação e Estresse Oxidativo

A esteatose hepática desencadeia uma resposta inflamatória de baixo grau no fígado, envolvendo a ativação de células imunes residentes, como os macrófagos hepáticos (células de Kupffer), e a liberação de citocinas pró-inflamatórias. Além disso, a lipotoxicidade induz estresse oxidativo, exacerbando a inflamação e contribuindo para a progressão da doença.

Disfunção Mitocondrial

A acumulação de lipídios no fígado também está associada à disfunção mitocondrial, levando a uma diminuição na capacidade de oxidação de ácidos graxos e aumento da produção de espécies reativas de oxigênio (ERO). Isso contribui para o estresse oxidativo e a inflamação, exacerbando a lesão hepática.

Fibrogênese Hepática

Em uma proporção significativa de pacientes, a DHGNA progride para fibrose hepática, que é mediada principalmente pela ativação das células estreladas hepáticas e deposição excessiva de matriz extracelular. Fatores pró-fibróticos, como a ativação do fator de crescimento transformador beta (TGF-β), desempenham um papel crucial nesse processo.

Esses mecanismos inter-relacionados contribuem para a progressão da DHGNA desde a esteatose hepática até estágios mais avançados da doença, como esteato-hepatite não alcoólica (NASH), fibrose hepática e, em casos graves, cirrose hepática e carcinoma hepatocelular.

Evolução da doença 

A partir da explicação do processo fisiopatológico da doença, compreende-se a evolução da doença, caso não seja feito o diagnóstico prévio e nem o tratamento. Assim, o primeiro estágio da doença hepática gordurosa não alcoólica é o fígado gorduroso não alcoólico (NAFL).

Dele, segue-se para a fase mais grave da doença é que Esteato-hepatite não alcoólica (NASH). Daqui, a doença pode seguir para a cirrose e então para o carcinoma hepatocelular (CHC). 

Chamamos de cirrose a disfunção hepática crônica caracterizada pela alteração da sua arquitetura normal, com substituição do parênquima por nódulos de regeneração (fibrose avançada – grau 4).  

Já o carcinoma hepatocelular (CHC), nos referimos a um tumor maligno primário do fígado, geralmente se desenvolve no contexto de doença hepática crônica e pode ser assintomático nos estágios precoces.

Manifestação clínica 

A DHGNA, muitas vezes, é assintomática em seus estágios iniciais, tornando crucial a atenção aos fatores de risco durante a avaliação clínica. 

No entanto, à medida que progride, sintomas como fadiga, desconforto abdominal, perda de peso inexplicada e hepatomegalia podem se manifestar. A suspeita clínica baseada nos fatores de risco é fundamental para direcionar as investigações diagnósticas.

Diagnóstico

O diagnóstico da doença hepática gordurosa não alcoólica requer: 

  • Demonstração de esteatose hepática por imagem ou biópsia
  • Exclusão de consumo significativo de álcool
  • Exclusão de outras causas de esteatose hepática
  • Ausência de doença hepática crônica coexistente.

A doença possui padrão silencioso e devido a isto, suspeita-se do diagnóstico em pacientes que estão fazendo o acompanhamento de alguma patologia que é fator de risco para a DHGNA.

História clínica e exames laboratoriais

Geralmente encontram alterações de biomarcadores como:

  • TGO e TGP: podem estar aumentados de duas a cinco vezes do valor normal
  •  GGT e Fosfatase Alcalina (FA): elevados de duas a três vezes
  • Bilirrubinas, plaquetas e albuminas: costumam estar elevados em caso de cirrose. 

Ao ter a suspeita do diagnóstico, é importante questionar sobre:

  • Antecedentes de obesidade e emagrecimento rápido
  • Histórico de DM 
  • Presença de hipertrigliceridemia
  • Hipertensão arterial 
  • SOP
  • Apneia do sono
  • Uso de fármacos (ex.: amiodarona, o diltiazem, o tamoxifeno, os esteróides e os antirretrovirais). 

Além disso, é importante questionar sobre outras causas importantes de doenças hepáticas para poder descartar outros diagnósticos, como o consumo de álcool excessivo (mais de 20g/dia para mulheres e 30g/dia para homem), hepatites virais, uso de medicamentos e doenças autoimunes. 

A biópsia hepática permanece o padrão-ouro para o diagnóstico definitivo da DHGNA, permitindo a avaliação histológica do fígado. Entretanto, seu uso generalizado é limitado devido a preocupações com a invasividade, risco associado e variabilidade interobservadora na interpretação histológica. Reserva-se, geralmente, a biópsia hepática para casos de incerteza diagnóstica, avaliação de gravidade da fibrose e em ensaios clínicos.

Por isso, utiliza-se cada vez mais exames de imagem no diagnóstico da DHGNA. 

Exames de imagem

A ultrassonografia é frequentemente utilizada como a primeira linha de imagem, sendo uma ferramenta acessível e amplamente disponível. Características como aumento difuso da ecogenicidade hepática e atenuação do feixe ultrassonográfico são indicativos, mas sua sensibilidade pode ser afetada pela obesidade.

A Ressonância Magnética com espectroscopia de gordura e elastografia hepática têm se destacado na detecção e caracterização da DHGNA, fornecendo informações mais detalhadas sobre a distribuição de gordura e a rigidez hepática. Estas modalidades são particularmente úteis em pacientes com dificuldades diagnósticas, como obesidade extrema.

Estratificação de Risco e Avaliação da Gravidade

A presença de fibrose e sua gravidade são fatores prognósticos na NASH. Pode-se estimar o grau de fibrose hepática de forma não-invasiva por escores laboratoriais (FIB-4 e NFS), elastografia hepática, ou, de forma invasiva, pela biópsia hepática.

Escores de Gravidade:

Escores como o FIB-4 e o NSF são ferramentas úteis na estratificação de risco, utilizando parâmetros laboratoriais e clínicos para prever a presença de fibrose avançada e cirrose. Esses escores ajudam a orientar a necessidade de investigações adicionais e possíveis intervenções terapêuticas.

  • NSF: é baseado em seis variáveis
    • Idade
    • Índice de massa corporal (IMC)
    • Hiperglicemia 
    • Plaquetas
    • Albumina
    • Relação AST/ALT

Exclui-se a fibrose avançada se a pontuação for menor ou igual a 1,455. Se a pontuação for maior que 0,676 aumenta a chance de ser fibrose avançada. 

  • FIB-4: é baseado em 4 variáveis
    • Contagem de plaquetas
    • Idade
    • AST
    • ALT

Pontuação menor que 1,45 é improvável fibrose avançada e acima de 3,25 é provável fibrose avançada. 

Elastografia Transiente por Fibroscan:

A elastografia transiente, também conhecida como Fibroscan, é uma técnica não invasiva que avalia a rigidez hepática, oferecendo informações sobre a presença e a gravidade da fibrose.

Biópsia hepática

A biópsia hepática é o exame padrão ouro para avaliação de inflamação e fibrose. Realiza-se em nos pacientes que se beneficiam do diagnóstico, orientação terapêutica e determinação prognóstica. 

  • Esteatose e inflamação: 
    • Não DHGNA: <5% esteatose; 
    • DHGNA com inflamação: ≥5% de esteatose, com ou sem inflamação lobular e portal; 
    • NASH: esteatose com inflamação lobular e portal e balonização hepatocelular. 
  • Fibrose (F0:
    • 0 – sem fibrose (F0)
    • 1 – fibrose perisinusoidal ou periportal (F1)
    • 2 – fibrose perisinusoidal e portal/periportal (F2)
    • 3 – fibrose em ponte (F3)
    • 4 – cirrose, nódulos de regeneração (F4)
Saiba mais: Exames para detecção da esteatose hepática 

Tratamento

A modificação do estilo de vida, incluindo dieta balanceada e aumento da atividade física, é a pedra angular do tratamento da DHGNA. Associa-se a perda de peso, mesmo moderada, a melhorias significativas na esteatose hepática e na sensibilidade à insulina.

É importante ainda indicar aos pacientes a abstenção do álcool, realização das imunizações contra vírus da hepatite A e hepatite B caso ainda não tenham imunidade. 

A depender do grau da esteatose, diversos medicamentos têm sido estudados para o tratamento da DHGNA, incluindo agentes hipolipemiantes, antidiabéticos, antioxidantes e moduladores do receptor nuclear.

Em casos selecionados de obesidade grave associada à DHGNA, a cirurgia bariátrica pode ser considerada. Estudos mostram que a perda de peso substancial após a cirurgia bariátrica está associada à melhora significativa na esteatose hepática e em parâmetros metabólicos.

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Como vimos neste artigo, a elestografia tem grande importância no diagnóstico, estratificação de risco da DHGNA. E consequentemente, na conduta terapêutica. Em vista disso, o Cetrus criou o curso intensivo em Elastografia Hepática por Ultrassom. Conheça mais sobre o curso abaixo:

Vantagens do US no acompanhamento das hepatopatias crônicas

Referências

  1. BRASIL. Diagnóstico e manejo ambulatorial da doença hepática gordurosa não alcoólica. Protocolo da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Hospital das Clínicas (Ebserh). Minas Gerais, 2022. 
  2. COPRA, S.; LAI, M. Management of nonalcoholic fatty liver disease in adults. UpToDate, 2024. 
  3. SHETH, S.G.; CHOPRA, S. Epidemiology, clinical features, and diagnosis of nonalcoholic fatty liver disease in adult. UpToDate, 2024. 
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEPATOLOGIA. Doença Hepática Gordurosa Não Alcóolica. Atha Comunicação e Editora.
  5. QUEIROZ, J. M. F. et al. Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica (DHGNA), caracterização, diagnóstico e tratamento. Research, Society and Development, v. 12, n. 14, e120121444602, 2023 

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Educa Cetrus Redator

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