Manejo da Doença de Kawasaki na UTI Pediátrica

Criança com termômetro na boca e irritação na pele sendo diagnostica com doença de kawasaki

Índice

A Doença de Kawasaki (DK) é uma vasculite sistêmica que afeta predominantemente crianças menores de cinco anos. Ela pode causar inflamação nas artérias de médio calibre, com um risco particular de desenvolver aneurismas nas artérias coronárias, sendo essa a complicação mais grave associada à doença. A rápida intervenção é essencial para reduzir o risco de complicações cardiovasculares. Nos casos graves ou que não respondem ao tratamento inicial, a admissão na unidade de terapia intensiva pediátrica (UTI) é frequentemente necessária.

Diagnóstico da Doença de Kawasaki

A DK é diagnosticada com base em critérios clínicos, incluindo febre persistente por pelo menos cinco dias e quatro dos seguintes cinco sintomas principais: erupção cutânea, alterações nas extremidades (edema ou descamação), conjuntivite bilateral não purulenta, alterações nos lábios e mucosa oral (lábios rachados, língua em framboesa) e linfadenopatia cervical. Em casos de DK incompleta, quando nem todos os critérios estão presentes, outros exames, como ecocardiograma e exames laboratoriais, são utilizados para auxiliar no diagnóstico.

Indicações para admissão na UTI

A admissão na UTI pediátrica é indicada para pacientes com DK que apresentem complicações cardiovasculares graves, como insuficiência cardíaca, choque cardiogênico, arritmias ventriculares, ou aneurismas coronarianos de grande calibre. Pacientes que não respondem ao tratamento inicial com imunoglobulina intravenosa (IVIG) também podem ser admitidos na UTI para receber terapias adicionais e monitoramento contínuo.

Tratamento na UTI

Tratamento Inicial com Imunoglobulina Intravenosa (IVIG)

O tratamento inicial da DK inclui a administração de imunoglobulina intravenosa (IVIG) em dose única (2 g/kg), associada à aspirina em doses anti-inflamatórias (30-50 mg/kg/dia). Esse regime terapêutico visa reduzir a inflamação sistêmica e o risco de formação de aneurismas coronarianos. O objetivo é administrar a IVIG dentro dos primeiros 10 dias de febre para evitar o desenvolvimento de complicações cardíacas.

Pacientes refratários à IVIG

Cerca de 10-20% dos pacientes com DK não respondem ao tratamento inicial com IVIG, continuando a ter febre persistente. Para esses pacientes, são recomendados tratamentos alternativos, como corticosteroides em pulsoterapia (metilprednisolona), inibidores do fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), como infliximabe, e agentes biológicos.

Monitoramento cardiovascular intensivo

Crianças com DK grave na UTI exigem monitoramento contínuo de parâmetros hemodinâmicos e eletrocardiográficos. Por isso, o uso de ecocardiograma é crucial para avaliar a progressão dos aneurismas coronarianos, assim como para detectar complicações cardíacas, como insuficiência cardíaca, pericardite, miocardite ou valvulopatias.

Arritmias e suporte ventilatório

Em alguns casos, as crianças com DK podem apresentar arritmias graves que necessitam de suporte avançado, como administração de antiarrítmicos e até suporte ventilatório mecânico em caso de insuficiência respiratória.

Uso de anticoagulação

Para pacientes com aneurismas coronarianos maiores ou risco de trombose, a anticoagulação com heparina ou varfarina pode ser indicada, além da continuidade da aspirina em doses antiplaquetárias.

Complicações na UTI

A principal preocupação durante o tratamento da DK na UTI é a evolução para complicações cardíacas graves, que podem ser potencialmente fatais se não tratadas adequadamente. Além dos aneurismas coronarianos, a DK pode levar a choque cardiogênico ou síndrome de resposta inflamatória sistêmica (SIRS), exigindo suporte hemodinâmico intensivo, incluindo o uso de drogas vasoativas, como dopamina ou dobutamina.

A evolução para choque refratário e disfunção ventricular grave pode exigir suporte circulatório avançado, como oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), especialmente em pacientes com falência cardíaca.

Papel da Equipe Multidisciplinar

A abordagem da DK em um ambiente de UTI pediátrica envolve uma equipe multidisciplinar, composta por intensivistas, cardiologistas pediátricos, reumatologistas e, em alguns casos, especialistas em doençasinfecciosas. Dessa forma, a colaboração é fundamental para ajustar o tratamento, monitorar complicações e adaptar a terapêutica de acordo com as necessidades individuais de cada paciente.

Prognóstico e seguimento a longo prazo

O prognóstico da DK depende da precocidade do diagnóstico e do tratamento. Crianças que recebem IVIG dentro dos primeiros 10 dias de febre têm um risco significativamente menor de desenvolver aneurismas coronarianos. No entanto, para aqueles que desenvolvem complicações cardíacas, é necessário um acompanhamento rigoroso e de longo prazo com cardiologistas pediátricos. Os médicos realizam ecocardiogramas seriados para monitorar a regressão ou progressão dos aneurismas coronarianos.

Mantem-se a terapia antiplaquetária com aspirina em doses baixas por longo prazo em pacientes com aneurismas, e a anticoagulação pode ser necessária em casos de aneurismas gigantes. O seguimento a longo prazo também inclui o monitoramento de fatores de risco cardiovascular, uma vez que esses pacientes podem ter um risco aumentado de doenças cardíacas na vida adulta.

Considerações finais

O manejo da Doença de Kawasaki na UTI pediátrica exige uma abordagem rápida e integrada, com o objetivo de minimizar o risco de complicações cardiovasculares graves. O diagnóstico precoce, a administração oportuna de IVIG e o uso de terapias alternativas em casos refratários são essenciais para o tratamento bem-sucedido. Além disso, o monitoramento contínuo e o suporte cardiovascular avançado desempenham papéis cruciais na gestão dos casos mais graves. Com um tratamento adequado, a maioria das crianças se recupera bem, embora seja necessário acompanhamento a longo prazo para monitorar possíveis complicações cardíacas.

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Dra. Vanessa Alves Guimarães Borges
Dra. Vanessa Alves Guimarães Borges
Cardiopediatria

Coordenadora da Cardiologia Pediátrica do Hospital Sírio-Libanês e médica do InCor-HCFMUSP. Pós-graduada em Cardio Oncologia e Gestão em Saúde, especialista em Cardiologia Pediátrica e Pediatria. Autora da Série CardioHumanização.

CRM: 118641/SP e RQE: 52170

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