Cardiopatias congênitas e o neurodesenvolvimento

Índice

O que você precisa saber sobre a relação entre as cardiopatias congênitas e o neurodesenvolvimento. Acesse e confira!

As cardiopatias congênitas (CC) representam um grupo diversificado de anomalias estruturais do coração que ocorrem durante o desenvolvimento fetal. Essas condições, que afetam uma proporção significativa de recém-nascidos, podem variar desde defeitos leves que não requerem intervenção até anomalias graves que demandam cirurgia imediata.

A compreensão das implicações das cardiopatias congênitas vai além do aspecto cardiovascular, pois muitos pacientes apresentam uma variedade de desafios no neurodesenvolvimento.

Esta revisão aborda a relação entre cardiopatias congênitas e comprometimento do neurodesenvolvimento, examinando os mecanismos fisiopatológicos subjacentes, os fatores de risco envolvidos e as estratégias de manejo clínico. 

Epidemiologia e etiologia

As cardiopatias congênitas representam a anormalidade estrutural mais comum ao nascer, afetando aproximadamente 1% dos recém-nascidos vivos. Entre as malformações congênitas responsáveis pelas principais causas de mortalidade na primeira infância, as CC representam 40% delas. 

Em 2020, segundo a Organização Mundial de Saúde, a incidência das cardiopatias congênitas no Brasil era de 8 para cada mil nascidos vivos. 

Entre essas anomalias, as mais prevalentes incluem defeitos do septo atrial e ventricular, tetralogia de Fallot, transposição das grandes artérias e persistência do canal arterial

A etiologia das cardiopatias congênitas é multifatorial, envolvendo influências genéticas, ambientais e teratogênicas.

Circulação fetal normal

Para compreender o que ocorre nas cardiopatias congênitas, é importante compreender como acontece a circulação fetal normal. 

A circulação fetal é um sistema circulatório único que permite o suprimento de oxigênio e nutrientes ao feto durante o desenvolvimento intrauterino. Esta circulação difere consideravelmente da circulação pós-natal, pois o feto ainda não utiliza os pulmões para a troca de gases e depende do suprimento de oxigênio proveniente da placenta. 

O oxigênio e os nutrientes necessários para o crescimento e desenvolvimento fetal são fornecidos pela placenta através da circulação materna. O sangue rico em oxigênio e nutrientes é transportado para o feto através da artéria umbilical.

O sangue oxigenado e rico em nutrientes chega ao feto através da veia umbilical, que desemboca na veia cava inferior. Parte desse sangue é desviada diretamente para a circulação sistêmica do feto através do forame oval, uma abertura na parede septal entre os átrios do coração fetal. 

O sangue que entra no ventrículo direito é então bombeado para a artéria pulmonar, mas como os pulmões fetais não estão funcionando, a maior parte do sangue é direcionada para a artéria aorta através do ducto arterioso, uma conexão vascular entre a artéria pulmonar e a aorta.

Após a troca de sangue…

Após a troca de oxigênio e nutrientes na placenta, o sangue fetal desoxigenado retorna ao feto através das artérias umbilicais. Uma parte desse sangue passa pelos vasos sanguíneos da circulação fetal para fornecer oxigênio e nutrientes ao corpo do feto. O restante do sangue desoxigenado é direcionado para a veia cava inferior através da veia umbilical, onde se mistura com o sangue rico em oxigênio proveniente da placenta.

Essa circulação permite que o feto receba oxigênio e nutrientes suficientes para seu crescimento e desenvolvimento adequados enquanto está no útero materno. Após o nascimento e a expansão dos pulmões, a circulação fetal se fecha gradualmente e dá lugar à circulação pós-natal, onde os pulmões assumem a responsabilidade pela troca de gases e o coração assume um novo padrão de fluxo sanguíneo para atender às demandas metabólicas do organismo.

Na figura abaixo é possível observar a cirulação fetal pré-natal e pós-natal:

Fonte: Super apostila Sanar 

Cardiopatias congêntias: o que são e quais os tipos? 

As cardiopatias congênitas são anomalias estruturais do coração que estão presentes no nascimento e podem afetar tanto a anatomia quanto a função cardíaca. Essas anomalias podem ser classificadas de várias maneiras com base em diferentes critérios, como a natureza da malformação, a localização anatômica afetada ou o tipo de fluxo sanguíneo alterado.

Podemos classificá-las em cianóticas e acianóticas, sendo esta última a mais frequente.  

Cardiopatias acianogênicas

As cardiopatias acianogências são divididas em:

  • Comunicação Interartial (CIA)
  • Comunicação Interventricular (CIV)
  • Permanencia do Canal Arterial (PCA)
  • Defeito do septo atrioventricular total
  • Estenose pulmonar 
  • Estenose aórtica
  • Coarctação da aorta

Dentre elas, é importante destacar que a CIA e a CIV são as mais comuns. 

Saiba mais: Coarctação da aorta: identificando com ecocardiografia

Cardiopatias cianogênicas

As cardiopatias congênitas cianóticas são classificadas em: 

  • Tetralogia de Fallot 
  • Anomalia de Ebstein
  • Síndrome de Eisenmenger 

Dentre elas, a Tetralogia de Fallot é a mais frequente. Saiba mais sobre essa patologia lendo nosso artigo completo abaixo: 

Saiba mais: Tetralogia de Fallot: entenda o que e principais componenetes

Manifestações clínicas da cardiopatia congênita

As manifestações clínicas vai variar do tipo de comprometimento cardiáco. Mas de forma geral, é possível observar:

  • Sopros
  • Cianose
  • Insuficiência cardíaca
  • Pulsos diminuidos ou não palpáveis
  • Má perfusão 
  • Desdobramento de segunda bulha 
  • B3. 

Cardiopatias congênitas e o neurodesenvolvimento

A relação entre cardiopatias congênitas e comprometimento do neurodesenvolvimento tem sido amplamente reconhecida. Estudos mostram que as cardiopatias congênitas impactam no desenvolvimento motor, cognitivo e de linguagem. 

Tanto a própia doença pode impactar no neurodesenvolmento, como as intervenções cirúrgicas e as internações prolongadas podem impactar, levando à repercussões na primeira infância e até mesmo na vida adulta. 

Mecanismos fisiopatológicos das Cardiopatias congênitas e o neurodesenvolvimento

Mecanismos fisiopatológicos complexos estão envolvidos nessa interconexão. Durante o desenvolvimento fetal, a hipoxia crônica devido à disfunção cardíaca pode comprometer o suprimento de oxigênio ao cérebro em desenvolvimento, resultando em lesões cerebrais e disfunção neurológica. 

O córtex pré-frontal e a substância branca são os mais comprometidos com as cardiopatias congênitas. Sua maturação e crescimento ficam comprometidos, resultando em comprometimentos neurológicos. 

Além disso, alterações hemodinâmicas, como fluxo sanguíneo reduzido para o cérebro ou embolia paradoxal de êmbolos provenientes do sistema venoso, podem contribuir para o comprometimento neurológico.

Problemas comuns no perioperatório como hipoperfusão, acidose, hipercapnia e uso de medicamentos podem levar ainda a complicações em no bebê com CC. Na cirurgia, há riscos aumentados devido ao longo tempo de circulação extracorpórea, baixos graus de hipotermia, elevadas quantidades de medicamentos. 

O pós operatório vai ser muito importante também para o desenvolvimento neurológico. As condições socioeconômicas e genéticas dessa família vão contribuir para uma melhor recuperação ou não da criança. 

Avaliação do neurodesenvolvimento

O crescimento e maturação reduzidos de certas regiões cerebrais podem ocasiosar comprometimentos: 

  • Intelectuais 
  • Funções executivas
  • Visomotoras
  • Perceptivas 
  • Integração
  • Neuromotoras. 

E estas podem ser percebidas ao observar o desenvolvimento neuropsicomotor das crianças. 

Desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM)

A deficiência no desenvolvimento neurológico na infância refere-se a um atraso na conquista dos marcos motores e a uma deficiência cognitiva, que podem persistir durante a idade escolar e adolescência, afetando vários aspectos do funcionamento do indivíduo. Estudos demonstram que, durante a idade escolar, essas deficiências se tornam mais evidentes devido ao aumento das demandas cognitivas nesse período. 

Os marcos motores são etapas importantes no desenvolvimento físico de uma criança, como aprender a sentar, engatinhar, andar e correr. O atraso na aquisição desses marcos pode indicar problemas no desenvolvimento neurológico da criança.

Além disso, a deficiência cognitiva na infância pode abranger uma ampla gama de dificuldades, incluindo atraso na linguagem, dificuldades de aprendizagem, déficit de atenção e problemas de memória. Essas dificuldades podem persistir e se tornar mais evidentes à medida que a criança enfrenta tarefas mais complexas na escola, exigindo maior capacidade cognitiva.

Impacto Clínico e Implicações de Manejo

O comprometimento do neurodesenvolvimento em pacientes com cardiopatias congênitas pode ter um impacto significativo na qualidade de vida, funcionalidade e autonomia. 

Crianças com deficiências neurológicas podem apresentar dificuldades acadêmicas, sociais e emocionais, exigindo suporte multidisciplinar abrangente, incluindo intervenções terapêuticas, educacionais e psicossociais. 

Além disso, o comprometimento do neurodesenvolvimento está associado a um maior risco de morbidade e mortalidade a longo prazo em pacientes com cardiopatias congênitas.

Diagnóstico e manejo das cardiopatias congênitas e o neurodesenvolvimento

A avaliação do neurodesenvolvimento em pacientes com cardiopatias congênitas é fundamental para identificar precocemente deficiências cognitivas, motoras e comportamentais. 

Testes padronizados, como escalas de desenvolvimento infantil e avaliações neuropsicológicas, são frequentemente utilizados para avaliar habilidades cognitivas, linguísticas e motoras em crianças com cardiopatias congênitas. 

Além disso, a monitorização regular do neurodesenvolvimento ao longo da infância e adolescência é essencial para detectar precocemente sinais de comprometimento e implementar intervenções adequadas.

Estratégias de manejo integrado são essenciais para otimizar os resultados clínicos e funcionais em pacientes com cardiopatias congênitas e comprometimento do neurodesenvolvimento. 

Uma abordagem multidisciplinar, envolvendo cardiologistas pediátricos, neurologistas, geneticistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos, é fundamental para fornecer cuidados abrangentes e personalizados. 

Intervenções precoces, como terapia ocupacional e fisioterapia, podem ajudar a promover o desenvolvimento motor e cognitivo em crianças com comprometimento neurológico.

Perspectivas Futuras 

Apesar dos avanços significativos na compreensão e no manejo das cardiopatias congênitas, muitas questões permanecem não resolvidas em relação à interação entre anomalias cardíacas e comprometimento do neurodesenvolvimento. 

Futuras pesquisas são necessárias para elucidar os mecanismos fisiopatológicos subjacentes, identificar biomarcadores precoces de lesão cerebral e desenvolver estratégias de prevenção e intervenção mais eficazes.

Abordagens inovadoras, como neuroimagem avançada tem sido cada vez mais empregada. Hoje, a ultrassonografia sozinha já detecta 93% desses problemas, mas um recurso mais recente, a neurossonologia fetal, analisa mais estruturas do que a ultrassonografia, o que permite elucidar dúvidas sobre as malformações do cérebro do feto, ajudando na conduta pré e pós-natal. 

Além disso, o uso da ecocardiografia fetal tem sido um importante aliado em descobrir precocemente as cardiopatias congênitas, ajudando na intervenção mais breve possível e reduzindo os riscos do comprometimento neurológico do feto.

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Referências

  1. BARKHUIZEN, M. et al. Antenatal and Perioperative Mechanisms of Global Neurological Injury in Congenital Heart Disease. Pediatric Cardiology (2021) 42:1–18 
  2. Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia para Gravidez na Mulher Portadora de Cardiopatia 
  3. MENDES, S.F.G. et al. Desenvolvimento neurológico após correção de cardiopatia congênita no período neonatal. Research, Society and Development, v. 11, n. 13, e505111335717, 2022 (CC BY 4.0) | ISSN 2525-3409 |
  4. PAULA, I. R. et al. Influência da cardiopatia congênita no desenvolvimento neuropsicomotor de lactentes. Fisioter. Pesqui. 27 (1) • Jan-Mar 2020 
  5. Selig FA. Outlook and Perspectives in Diagnosis and Treatment of Congenital Heart Diseases in Brazil. Arq Bras Cardiol. 2020 Dec;115(6):1176-1177. English, Portuguese. doi: 10.36660/abc.20200680. PMID: 33470319; PMCID: PMC8133732.

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