A terapia fetal representa um dos avanços mais significativos da medicina materno-fetal nas últimas décadas. No Brasil, embora ainda concentrada em centros especializados, a prática vem se consolidando como alternativa viável e segura para o tratamento de diversas condições intrauterinas que ameaçam a vida fetal ou comprometem gravemente a qualidade de vida pós-natal.
Com o avanço tecnológico e científico, técnicas como cirurgia fetoscópica, transfusões intrauterinas, ablação por laser e procedimentos guiados por imagem tornaram-se mais acessíveis e eficazes, mudando o prognóstico de milhares de gestações de alto risco.
O que é terapia fetal e em quais casos está indicada?
A terapia fetal consiste em intervenções realizadas ainda durante a gestação, com o objetivo de tratar doenças fetais antes do nascimento. Dessa forma, essas terapias podem variar de procedimentos minimamente invasivos até cirurgias abertas intraútero. O conceito emergiu no final do século XX, impulsionado por avanços em técnicas de imagem, anestesia e instrumentação. Inicialmente, as terapias fetais envolviam principalmente transfusões intrauterinas para casos de anemia fetal. Hoje, incluem correções cirúrgicas de malformações, ablações vasculares e drenagens de cavidades fetais, entre outras.
A evolução dessa abordagem é contínua, com destaque para o aprimoramento das técnicas fetoscópicas e o uso de terapias guiadas por ultrassonografia e ressonância magnética. Além disso, centros brasileiros têm contribuído com pesquisas e aplicação clínica, consolidando a terapia fetal como ferramenta essencial em medicina fetal avançada.
Indicações clínicas mais frequentes
As indicações para terapia fetal são variadas, mas geralmente envolvem condições com alto risco de morbimortalidade fetal ou neonatal. Podemos agrupar essas indicações em três categorias principais:
Malformações fetais corrigíveis intraútero
Entre as malformações fetais passíveis de correção intrauterina, destaca-se a mielomeningocele. Estudos como o MOMS Trial (Management of Myelomeningocele Study) demonstraram que a correção intrauterina dessa condição reduz a necessidade de derivação ventricular e melhora o prognóstico motor. No Brasil, realiza-se essa técnica principalmente por fetoscopia ou cirurgia aberta, sendo indicada entre 24 e 26 semanas de gestação.
Além disso, abordam-se outras malformações, como hérnia diafragmática congênita, com técnicas como o oclusor traqueal fetoscópico, que aumenta o crescimento pulmonar e melhora a sobrevida neonatal.
Para aprofundar esse tema, leia também sobre as causas de taquicardia e bradicardia em bebês neste artigo técnico sobre arritmia fetal.
Complicações de gestações gemelares
As gestações monocoriônicas apresentam risco aumentado para complicações como a Síndrome de Transfusão Feto-Fetal (STFF), a síndrome de anemia-poliglobulia e o TRAP sequence. Assim, todas essas condições podem demandar intervenções fetais específicas, como ablação de anastomoses placentárias por laser ou ablação por radiofrequência.
Além disso, a STFF, em particular, é uma das causas mais comuns de intervenção fetal no Brasil e no mundo. Quando não tratada, a mortalidade fetal pode ultrapassar 90%.
Hidropisia, anemias e obstruções urinárias
Pode-se tratar casos de hidropisia fetal, sobretudo de origem anêmica, com transfusões intrauterinas, especialmente quando associadas a isoimunização Rh. Além disso, também pode-se abordar obstruções do trato urinário, como valvas uretrais posteriores, por meio de derivação vesicoamniótica, que reduz a pressão intrauterina e preserva o parênquima renal.
Técnicas de terapia fetal mais realizadas no Brasil
Com o crescimento da medicina fetal no Brasil, implementaram-se diversas técnicas de intervenção intrauterina com sucesso em centros de referência. A seguir, descrevemos as principais abordagens utilizadas no cenário nacional.
Cirurgia fetoscópica
A fetoscopia é uma técnica minimamente invasiva que utiliza instrumentos endoscópicos específicos para acessar a cavidade uterina. Com o uso de instrumentos específicos, é possível realizar procedimentos terapêuticos com menor risco para a mãe e o feto.
Correção da síndrome de transfusão feto-fetal (STFF)
A STFF ocorre quando há anastomoses vasculares desequilibradas na placenta de gestações monocoriônicas. O tratamento padrão é a coagulação seletiva dos vasos comunicantes com laser, técnica conhecida como laser de Solomon.
No Brasil, centros especializados realizam o procedimento com taxas de sobrevida de ambos os fetos superiores a 60%, comparáveis aos melhores centros internacionais.
Mielomeningocele intraútero
Pode-se realizar a correção da mielomeningocele por cirurgia aberta ou técnica fetoscópica. A abordagem fetoscópica reduz o risco materno, permite a correção em menor idade gestacional e tem demonstrado bons desfechos neurológicos. Embora a técnica seja desafiadora, centros como o IMIP vêm ganhando experiência com resultados promissores.
Cordocentese e transfusões intrauterinas
Utiliza-se a cordocentese tanto para diagnóstico quanto para tratamento de anemias fetais graves, como nos casos de isoimunização. Além disso, realiza-se a transfusão intrauterina guiada por ultrassom, podendo ser realizada a partir da 18ª semana de gestação. Indica-se para hemoglobinopatias, parvovirose B19 e hidropisia.
Dados nacionais mostram taxas de sobrevida fetal em determinados casos superiores a 80% quando a intervenção é feita em tempo hábil.
Amnioinfusão e amniodrenagem terapêutica
A amnioinfusão é indicada para casos de oligoâmnio severo, compressão de cordão umbilical e algumas patologias intestinais fetais. Já a amniodrenagem é utilizada para reduzir o volume de líquido amniótico em casos de polidrâmnio severo, frequentemente associado à STFF ou malformações esofágicas.
Assim, ambas as técnicas são guiadas por ultrassonografia e têm baixo risco de complicações quando realizadas por equipes experientes.
Ablação por radiofrequência e laser
A ablação por radiofrequência é indicada em casos de gestação gemelar com TRAP sequence (acardiac twin), em que há risco de insuficiência cardíaca no feto saudável. Dessa forma, a técnica utiliza um eletrodo que gera calor controlado, interrompendo o fluxo sanguíneo para o feto acárdico.
A ablação a laser, além de sua aplicação na STFF, pode ser utilizada em malformações vasculares fetais.
Aspectos éticos, legais e logísticos da intervenção fetal
Consentimento informado e autonomia materna
A realização de terapia fetal exige consentimento informado rigoroso, pois envolve riscos significativos para a gestante e o feto. A autonomia da mulher deve ser respeitada em todas as etapas do processo, e a decisão pela intervenção precisa ser compartilhada, com base em informações claras e embasadas cientificamente. É imprescindível garantir apoio psicológico e assistência multiprofissional.
Implicações legais e políticas públicas de acesso
No Brasil, ainda não há legislação específica sobre a prática da terapia fetal, o que pode gerar insegurança jurídica para os profissionais envolvidos.
Além disso, o acesso a essas técnicas está limitado a poucos centros terciários, dificultando a universalização do atendimento. Iniciativas como protocolos nacionais e financiamento público para hospitais de referência são fundamentais para ampliar o acesso.
Barreiras regionais e desigualdades no sistema de saúde
A concentração de centros de medicina fetal em regiões como Sudeste e Sul agrava as desigualdades no acesso à terapia fetal. Assim, muitas gestantes precisam percorrer longas distâncias para obter atendimento especializado, o que pode atrasar intervenções críticas. Investimentos em formação de equipes regionais e descentralização dos serviços são essenciais para mudar esse cenário.
Evidências científicas e resultados clínicos no Brasil
Estudos brasileiros relevantes e comparações internacionais
Diversos estudos conduzidos no Brasil demonstram que os resultados clínicos da terapia fetal são comparáveis aos obtidos em países desenvolvidos. Uma análise do IMIP publicada no Ultrasound in Obstetrics & Gynecology demonstrou sobrevida dupla de 64% em casos de STFF tratados com laser.
Dessa forma, outro estudo da USP comparou a abordagem aberta e fetoscópica na mielomeningocele e concluiu que ambas são viáveis, com vantagens distintas em cada técnica.
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Referências bibliográficas
- RESENDE, T. M. da S. et al. Síndrome da transfusão feto‑fetal – experiência de um hospital universitário com tratamento intrauterino. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 48, e20202671, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rcbc/a/kp83BkKcm95yX7ZGtP8DPVs/?lang=pt.
- FÁQUINI, S. L. L. et al. Tratamento fetal da mielomeningocele no Brasil. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, v. 24, e20240241, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbsmi/a/qvy3q7P9g7qLMv5JnrHDypR/?lang=pt.
- CENTRO DE MEDICINA FETAL GESTAR / APM. Estudo brasileiro sugere nova conduta mundial para Mielomeningocele. Associação Paulista de Medicina, 18 nov. 2021. Disponível em: https://www.apm.org.br/estudo-brasileiro-sugere-nova-conduta-mundial-para-mielomeningocele/
- SENADO FEDERAL. Especialistas pedem divulgação de tratamento para mielomeningocele no SUS. Agência Senado, 22 abr. 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/04/22/especialistas-pedem-divulgacao-de-tratamento-para-mielomeningocele-no-sus





