Ultrassonografia no diagnóstico de lesões musculoesqueléticas: avanços e aplicações clínicas

Índice

Tudo sobre as lesões musculoesqueléticas, desde os sintomas, diagnóstico e terapêutica utilizando a ultrassonografia.

A ultrassonografia (USG) tem ganhado destaque na prática clínica como uma ferramenta diagnóstica para o sistema musculoesquelético, oferecendo imagens em tempo real de alta resolução que permitem uma avaliação dinâmica de músculos, tendões, ligamentos, articulações e estruturas vizinhas.

Este avanço, aliado à crescente acessibilidade e à ausência de radiação ionizante, posiciona a ultrassonografia como uma modalidade de imagem amplamente utilizada no manejo de diversas condições clínicas.

Este artigo aborda os avanços recentes, as vantagens e as aplicações clínicas da ultrassonografia no diagnóstico de lesões musculoesqueléticas, além de discutir diretrizes para seu uso eficaz.

Lesões musculoesqueléticas

Lesões musculoesqueléticas referem-se a qualquer dano ou disfunção que afete músculos, ossos, articulações, tendões, ligamentos, nervos ou outras estruturas que compõem o sistema musculoesquelético.

Essas lesões podem ser agudas, resultantes de um trauma ou esforço súbito, ou crônicas, decorrentes de sobrecarga repetitiva ou condições degenerativas. Elas podem variar em gravidade desde pequenas distensões até fraturas graves e rupturas de ligamentos.

As lesões musculares são a principal causa de incapacidade física na prática esportiva, representando entre 30% e 50% de todas as lesões relacionadas ao esporte, com variações conforme a modalidade. No atletismo e futebol, lesões musculares constituem de 30% a 41% das lesões, enquanto no levantamento de peso, chegam a 59%.

Esse cenário evidencia a importância de abordagens diagnósticas eficazes, como a ultrassonografia, que oferece precisão, ausência de radiação, e capacidade de testes dinâmicos, essenciais para o tratamento e recuperação rápida dos atletas.

Principais tipos de lesões musculoesqueléticas

  • Lesões Musculares: Incluem distensões, lacerações e contusões. Elas ocorrem quando as fibras musculares são estiradas além de sua capacidade ou submetidas a um trauma direto.
  • Tendinites e Tendinopatias: São inflamações ou alterações degenerativas dos tendões, geralmente causadas por sobrecarga ou movimentos repetitivos.
  • Lesões Ligamentares: Como entorses, ocorrem quando os ligamentos são estirados ou rasgados devido a movimentos articulares anormais ou trauma.
  • Fraturas Ósseas: Resultam de forças que excedem a resistência do osso, levando à quebra do mesmo.
  • Luxações e Subluxações: Ocorrem quando as articulações são forçadas além de seu movimento normal, levando ao desalinhamento das superfícies articulares.
  • Bursites: São inflamações das bursas, pequenos sacos cheios de líquido que reduzem o atrito entre os tecidos.
  • Sinovites: Inflamação da membrana sinovial que reveste as articulações, comum em condições inflamatórias crônicas como artrite reumatoide.

Sinais e sintomas apresentados nas lesões musculoesqueléticas

Os sinais e sintomas das lesões musculoesqueléticas variam dependendo da natureza e gravidade da lesão, mas geralmente incluem:

  • Dor;
  • Edema;
  • Limitação do movimento;
  • Hematomas;
  • Fraqueza;
  • Deformidades visíveis;
  • Creptações;
  • Sensação de instabilidade;
  • Rigidez;
  • Espasmos musculares;
  • Sinais flogísticos.

Vantagens da ultrassonografia no diagnóstico de lesões musculoesquelética

Uma das principais vantagens da ultrassonografia é sua capacidade de fornecer imagens em tempo real, permitindo uma avaliação dinâmica que muitas vezes não é possível com outras modalidades de imagem, como a ressonância magnética (RM) ou a tomografia computadorizada (TC). Além disso, a USG é acessível, portátil, e pode-se realizar à beira do leito, o que facilita o atendimento imediato de pacientes com lesões agudas ou condições crônicas.

Outra vantagem notável é a ausência de radiação ionizante, o que a torna especialmente útil para populações vulneráveis, como crianças, gestantes e atletas que requerem múltiplas avaliações ao longo do tempo. A USG também é útil para guiar procedimentos intervencionistas, como infiltrações articulares e biópsias de tecidos, garantindo maior precisão e segurança.

Além disso, a resolução espacial da ultrassonografia de alta frequência permite a detecção precoce de pequenas lesões, como micro-rupturas tendíneas ou sinovite inicial, que podem ser difíceis de visualizar com outras modalidades. A avaliação comparativa entre o lado afetado e o lado contralateral é outra estratégia que a ultrassonografia facilita, fornecendo uma referência anatômica adicional para o diagnóstico.

Princípios de funcionamento da ultrassonografia

A ultrassonografia baseia-se na emissão e recepção de ondas sonoras de alta frequência para gerar imagens das estruturas internas do corpo. Coloca-se o transdutor, dispositivo que emite e recebe essas ondas, em contato direto com a pele, utilizando um gel condutor para melhorar a transmissão das ondas sonoras.

No contexto musculoesquelético, a ultrassonografia permite a visualização detalhada de músculos, tendões, ligamentos, bursas e outras estruturas, fornecendo informações sobre a anatomia normal e alterações patológicas.

A capacidade de avaliar dinamicamente essas estruturas, incluindo movimentos e respostas à compressão, adiciona uma dimensão funcional ao exame, enriquecendo a avaliação diagnóstica.

Para o diagnóstico musculoesquelético, utiliza-se transdutores de alta frequência (geralmente entre 7 e 15 MHz), proporcionando imagens de alta resolução das estruturas superficiais.

Uma vantagem importante da ultrassonografia é a sua capacidade de realizar exames dinâmicos, possibilitando a avaliação de estruturas durante o movimento, o que pode ser essencial para o diagnóstico de condições que se manifestam de forma intermitente ou que envolvem compressões intermitentes de nervos ou vasos.

Ultrassonografia Musculoesquelética

Para identificar as lesões nas imagens do USG, é preciso que o médico domine antes o padrão normal de cada grupo muscular do corpo. Para isso, o conhecimento anatômico é muito importante e fundamental.

O músculo constitui-se por diversas estruturas organizadas em camadas, cada uma desempenhando um papel crucial na função muscular. Compõe-se de fibras musculares, miofibrilas, sarcômero, tecido conjuntivo, vasos sanguíneos e nervos, além do sarcoplasma e membrana plasmática.

O tecido conjuntivo forma-se de três camadas principais de tecido conjuntivo envolvem e protegem as fibras musculares que são:

  • Epimísio: Envolve todo o músculo;
  • Perimísio: Envolve fascículos, que são grupos de fibras musculares;
  • Endomísio: Envolve individualmente cada fibra muscular.

O entendimento da anatomia muscular é essencial para interpretar as imagens digitais, uma vez que o tecido muscular compõe a maior parte das imagens dos membros. Os músculos apresentam uma arquitetura distintiva, com fibras musculares hipoecóicas intercaladas por tecido conjuntivo hiperecóico, formando o perimísio. Quando vistos em corte transversal, os músculos podem exibir um padrão descrito como uma “noite estrelada”.

Ultrassonografia que demonstra a aparência de “noite estrelada” do músculo no eixo curto com perimísio brilhante intermediário intercalado com fibras musculares mais escuras.

Os músculos são geralmente mais hipoecóicos (mais escuros) em relação a outros tecidos, como os tendões.

Ultrassonografia demonstrando o contraste entre músculo e tendão. O músculo mais hipoecóico (mais escuro) no eixo longo é demonstrado (seta amarela) próximo ao tendão hiperecóico (mais claro) no eixo longo. Observe as fibras musculares hipoecóicas em relação à arquitetura fibrilar do tendão. Observe também a aparência diferente do músculo orientado no eixo curto em relação ao transdutor (seta vermelha).
Médico realizando exame de ultrassonografia no joelho de um paciente, com destaque para o podcast com Dr. Monres, ortopedista e ultrassonografista musculoesquelético.

Aplicações clínicas da ultrassonografia nas lesões musculoesqueléticas

A versatilidade da ultrassonografia permite sua aplicação em uma ampla gama de condições musculoesqueléticas.Abaixo estão algumas das principais indicações clínicas.

Lesões Musculares

Utiliza-se a ultrassonografia para a avaliação de lesões musculares, incluindo distensões, rupturas parciais ou completas, e lesões relacionadas a traumas agudos ou crônicos.

A USG permite a visualização detalhada da arquitetura muscular, incluindo a identificação de áreas de hematoma, alterações fibróticas ou cicatriciais e a presença de calcificações. Além disso, a ultrassonografia permite monitorar o processo de cicatrização, orientando as decisões sobre o retorno do paciente às atividades físicas ou ao esporte.

Tendinites e Tendinopatias

Caracteriza-se a tendinite por inflamação dos tendões. Esta é uma condição comum que pode ser identificada com precisão pela ultrassonografia. A USG permite a avaliação da ecotextura do tendão, visualizando alterações como espessamento, hipoecogenicidade e neovascularização, que são características da inflamação tendínea.

No caso de rupturas tendíneas, a ultrassonografia permite identificar com clareza a presença de descontinuidades no tendão, além de medir o grau de retração e a presença de lesões associadas.

Bursites

As bursas são sacos preenchidos por líquido sinovial que reduzem o atrito entre estruturas móveis. Inflamações dessas estruturas, conhecidas como bursites, podem ser avaliadas eficazmente por ultrassonografia, que identifica o aumento de volume, espessamento das paredes e presença de líquido anormal. O exame também auxilia na distinção entre bursites sépticas e assépticas, orientando o tratamento apropriado.

Em casos crônicos, pode-se observar calcificações no interior da bursa. Avalia-se a bursite do ombro, dinamicamente com a US durante movimentos específicos do paciente. Isso ajuda a diferenciar a bursite de outras condições do ombro, como a síndrome do impacto.

Sinovites

A inflamação da membrana sinovial, ou sinovite, é comum em diversas condições reumatológicas e pós-traumáticas. Neste tipo de lesão musculoesquelética, utiliza-se a ultrassonografia com doppler para detectar o aumento do fluxo sanguíneo associado à sinovite ativa, o que é particularmente útil no monitoramento de doenças inflamatórias crônicas, como artrite reumatoide.

A US pode detectar sinovites mesmo em fases iniciais, antes de alterações ósseas ou articulares se tornarem evidentes em outros exames de imagem.

Leia mais: Sinovite: como diagnosticar ao US

Lesões Ligamentares

A avaliação das lesões ligamentares, como as que ocorrem no joelho (ex.: ligamento cruzado anterior) ou no tornozelo (ex.: ligamento talofibular anterior), é um dos pontos fortes da ultrassonografia.

A USG pode detectar alterações estruturais nos ligamentos, incluindo espessamento, hiperecoico nos casos crônicos, ou descontinuidades nas lesões agudas. Pode-se realizar um exame dinâmico para testar a estabilidade ligamentar sob estresse.

Lesões Esportivas

No contexto da medicina esportiva, a ultrassonografia é uma ferramenta diagnóstica essencial para avaliar rapidamente lesões agudas e crônicas, facilitando decisões clínicas imediatas.

Em pacientes que são atletas de elite, o uso desse institumento de imagem é de grande valia, principalmente durante próximo às competições, permitindo intervenções terapêuticas oportunas e planejamento de reabilitação adequado.

Auxílio em procedimentos intervencionistas

A ultrassonografia não se limita ao diagnóstico, desempenhando também um papel crítico na orientação de procedimentos intervencionistas musculoesqueléticos.

Infiltrações musculoesqueléticas

As infiltrações musculoesqueléticas é uma técnica empregada no manejo de condições inflamatórias, degenerativas e dolorosas do sistema musculoesquelético, proporcionando alívio dos sintomas e, em alguns casos, auxiliando no diagnóstico de patologias específicas.

Os principais medicamentos utilizados nas infiltrações musculoesqueléticas incluem:

  • Corticosteroides;
  • Anestésicos Locais como a lidocaína e bupivacaína;
  • Ácido Hialurônico;
  • Plasma Rico em Plaquetas;
  • Toxina Botulínica.

A USG aumenta significativamente a precisão das infiltrações articulares. Ela permite a visualização direta da agulha durante o procedimento. Isso garante que o medicamento seja entregue diretamente na articulação ou região afetada.

Isso é particularmente útil em articulações pequenas, como o punho ou tornozelo, onde a anatomia pode ser complexa. A precisão aumentada pela US reduz o risco de complicações e melhora os resultados clínicos, especialmente em condições inflamatórias, como a artrite.

Leia mais sobre o tema:

Biópsias

Outro uso importante é a biópsia guiada por US, particularmente em casos de massas ou lesões suspeitas de natureza maligna ou inflamatória. A ultrassonografia permite a seleção precisa do local da amostra, minimizando danos aos tecidos circundantes e melhorando a qualidade da amostra coletada.

Esse procedimento é amplamente utilizado para a coleta de amostras de tecidos moles, linfonodos e tendões.

Pós-Graduação em Ultrassonografia Musculoesquelética

A ultrassonografia emergiu como uma ferramenta valiosa e versátil no diagnóstico e manejo de lesões musculoesqueléticas, oferecendo imagens de alta resolução, avaliação dinâmica em tempo real e orientação precisa para procedimentos intervencionistas.

Os avanços tecnológicos contínuos e o desenvolvimento de técnicas aprimoradas prometem expandir ainda mais suas aplicações clínicas.

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Referências

  1. Aprendendo sobre ultrassonografia no sistema locomotor – imagens dos músculos
  2. BRUNING, M.C.R. et al. Ultrassom Terapêutico no Tratamento da Lesão Muscular: revisão sistemática. Revista Pesquisa em Fisioterapia 6(4), 2016. DOI:10.17267/2238-2704rpf.v6i4.1140
  3. LEITE, A.P.B. et al. Efetividade e segurança do ultrassom terapêutico nas afecções musculoesqueléticas: overview de revisões sistemáticas Cochrane. Acta Fisiátrica, São Paulo, v. 20, n. 3, p. 157–160, 2013. DOI: 10.5935/0104-7795.20130026. 
  4. NETO, A.B. et al. A importância da ultrassonografia na identificação de lesões musculoesqueléticas. Revista Unilago, 2024.
  5. SILVA, A.N.G. et al. Terapia por ultrassom na reabilitação muscular: revisão. Revista Perspectiva, 2022. DOI:10.31512/persp.v.46.n.173.2022.208.p.19-30

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Educa Cetrus Redator

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