Hiperplasia da tireoide: como a ultrassonografia pode auxiliar nesse diagnóstico?
A glândula tireoide é uma estrutura essencial para a regulação metabólica do organismo, sendo responsável pela produção dos hormônios tireoidianos, principalmente a tiroxina (T4) e a triiodotironina (T3). Estes hormônios desempenham um papel importante no metabolismo basal, no crescimento e no desenvolvimento.
Anatomicamente, a tireoide é uma glândula em forma de borboleta localizada na parte anterior do pescoço, abaixo da laringe e anterior à traqueia. É composta por dois lobos laterais conectados por um istmo, e sua função é regulada pelo eixo hipotálamo-hipófise-tireoide. Sob estimulação do hormônio estimulante da tireoide (TSH), produzido pela hipófise anterior, a tireoide capta iodo do sangue, necessário para a síntese de T4 e T3.
Definição de hiperplasia da tireoide
A hiperplasia da tireoide refere-se ao aumento do número de células tireoidianas, resultando no aumento do volume da glândula. Este processo é geralmente uma resposta compensatória a estímulos externos ou internos, como a deficiência de iodo, que leva a um aumento do TSH, ou a disfunções hormonais.
O aumento na produção de células pode ser difuso, afetando toda a glândula, ou focal, resultando na formação de nódulos. Clinicamente, a hiperplasia da tireoide se manifesta como um bócio, que é o termo utilizado para descrever o aumento visível ou palpável da tireoide.
Classificação da hiperplasia da tireoide
Pode-se classificar a hiperplasia tireoidiana em duas categorias principais:
Hiperplasia difusa
Ocorre quando há um aumento uniforme de toda a glândula, sem a formação de nódulos. Assim, este tipo de hiperplasia é comum em condições como a Doença de Graves, uma patologia autoimune onde anticorpos estimulam excessivamente o receptor de TSH, levando a um crescimento difuso e hiperfuncional da tireoide.
Hiperplasia nodular
Esta forma de hiperplasia caracteriza-se pela presença de nódulos, que consistem em áreas localizadas de crescimento celular excessivo. A hiperplasia nodular pode ser funcional (produzindo hormônios) ou não funcional.
Nódulos múltiplos são frequentemente observados em casos de bócio multinodular, enquanto nódulos únicos podem ser benignos ou malignos, necessitando de avaliação adicional para excluir neoplasias.
Etiologias da hiperplasia da tireoide
A hiperplasia da tireoide pode ter várias causas, dependendo de fatores ambientais, genéticos e imunológicos. As principais etiologias incluem:
Deficiência de iodo
A falta de iodo na dieta é uma das causas mais comuns de hiperplasia tireoidiana. O iodo é um componente essencial para a síntese dos hormônios tireoidianos.
Na ausência de quantidades adequadas de iodo, a tireoide não consegue produzir T4 e T3 em níveis suficientes, o que leva a um aumento compensatório do TSH, estimulando o crescimento da glândula.
Doença de Graves
Esta é uma condição autoimune onde anticorpos estimulam o receptor de TSH, levando a um aumento difuso e hiperfuncional da tireoide. Pacientes com Doença de Graves frequentemente apresentam bócio difuso, hiperplasia e sintomas de hipertireoidismo, como perda de peso, taquicardia bem como exoftalmia.
Bócio multinodular
Esta condição caracteriza-se pelo crescimento de múltiplos nódulos na tireoide, que podem ser funcionais ou não funcionais.
A hiperplasia nodular pode ocorrer ao longo de anos, frequentemente associada à idade avançada e à exposição crônica a níveis subótimos de iodo.
Tireoidite de Hashimoto
Outra condição autoimune, a tireoidite de Hashimoto, pode levar à hiperplasia da tireoide.
Neste caso, a inflamação crônica causada por uma resposta autoimune contra a tireoide resulta em destruição do tecido glandular e subsequente crescimento compensatório, geralmente levando a uma glândula hipoecogênica e heterogênea no ultrassom.
Neoplasias tireoidianas
Em casos mais raros, a hiperplasia pode ser causada por neoplasias tireoidianas, como adenomas ou carcinomas. Nestes casos, a avaliação cuidadosa através de técnicas de imagem e, muitas vezes, biópsia é necessária para determinar a natureza do crescimento.
Diagnóstico da hiperplasia da tireoide
O diagnóstico da hiperplasia da tireoide começa com uma avaliação clínica detalhada, incluindo a:
- História médica do paciente
- Exame físico
- Dosagem de hormônios tireoidianos (T4 livre, T3 livre, TSH).
O exame físico pode revelar um aumento da glândula tireoidiana, que pode ser palpável ou visível. No entanto, para uma avaliação mais detalhada da morfologia e da função da tireoide, a ultrassonografia da tireoide (USG) é o exame de escolha.
Ultrassonografia no diagnóstico da hiperplasia da tireoide
A ultrassonografia, amplamente utilizada na avaliação das patologias tireoidianas, é uma ferramenta diagnóstica não invasiva que fornece imagens em tempo real da tireoide. Com isso, permite realizar uma análise detalhada da anatomia glandular, identificando a presença de nódulos e avaliando a vascularização.
Essa técnica é especialmente útil para diferenciar entre hiperplasia difusa e nodular, além de guiar procedimentos intervencionistas, como a punção aspirativa por agulha fina (PAAF).
Técnica ultrassonográfica
Ao realizar o exame ultrassonográfico da tireoide, o paciente deve se posicionar em decúbito dorsal, com o pescoço levemente hiperestendido. Isso facilita o acesso à região anterior do pescoço. Para obter imagens de alta resolução, utiliza-se um transdutor linear de alta frequência, geralmente entre 7,5 e 15 MHz. Inicialmente, avalia-se o tamanho e a forma da glândula tireoide, seguindo-se para a análise da ecogenicidade, que pode fornecer pistas importantes sobre a etiologia da hiperplasia.
Normalmente, a ecogenicidade da tireoide é ligeiramente superior à dos músculos circundantes, e a glândula apresenta uma ecotextura homogênea. Contudo, na hiperplasia, especialmente em casos de Doença de Graves os pacientes costumam ter uma ecogenicidade difusamente baixa.
Em situações de tireoidite de Hashimoto, a glândula geralmente apresenta-se aumentada e hipoecogênica, com uma ecotextura heterogênea devido à inflamação e à fibrose. Observa-se a hipoecogenicidade geral (escuridão) da glândula de Hashimoto envolvida, em comparação com a textura suave e homogênea de cinza médio da tireoide normal.
A avaliação dos nódulos tireoidianos constitui uma parte essencial do exame ultrassonográfico, assim, esses nódulos podem variar em tamanho, forma e ecogenicidade. Nódulos hipoecogênicos, com margens irregulares, microcalcificações e aumento da vascularização intranodular, são características que podem sugerir malignidade. Nesses casos, recomenda-se a PAAF para análise citológica.
Doppler para avaliar vascularização
Durante o exame ultrassonográfico, utiliza-se frequentemente o Doppler colorido para avaliar a vascularização da tireoide e dos nódulos. Assim, em casos de hiperplasia, especialmente na Doença de Graves, pode-se observar um aumento significativo da vascularização, conhecido como “inferno tireoidiano”, devido ao fluxo sanguíneo aumentado.
Abordagem terapêutica
A abordagem terapêutica da hiperplasia da tireoide deve ser individualizada, considerando-se a causa subjacente, a gravidade dos sintomas, a presença de complicações bem como as características específicas do paciente, como idade e comorbidades.
Suplementação de Iodo
A suplementação de iodo é indicada principalmente nos casos de hiperplasia tireoidiana associada à deficiência desse micronutriente. O iodo é essencial para a síntese dos hormônios tireoidianos, e sua deficiência leva a um aumento compensatório na secreção de TSH (hormônio estimulante da tireoide), o que estimula o crescimento da glândula tireoidiana.
Assim, a administração de iodo, geralmente na forma de sal iodado ou suplementos orais, corrige essa deficiência e pode, ao longo do tempo, reduzir o tamanho da tireoide e normalizar os níveis hormonais. Contudo, é fundamental monitorar a resposta ao tratamento, pois a suplementação excessiva de iodo pode induzir ou exacerbar condições como o hipertireoidismo.
Antitireoidianos
Em casos de hiperplasia tireoidiana associada ao hipertireoidismo, como na Doença de Graves, o tratamento com medicamentos antitireoidianos é frequentemente a primeira linha de intervenção. Dessa forma, os antitireoidianos, como o metimazol e o propiltiouracil, atuam inibindo a síntese dos hormônios tireoidianos, diminuindo a hiperatividade glandular.
Assim, além de reduzir os níveis de T4 e T3, o uso desses medicamentos pode ajudar a diminuir o tamanho da glândula tireoidiana hiperplásica. O tratamento costuma ser prolongado, e é necessário monitorar periodicamente a função tireoidiana para ajustar a dose e prevenir efeitos adversos, como a agranulocitose, uma condição rara mas potencialmente grave.
Radioiodo (I-131)
O tratamento com radioiodo (I-131) é uma opção eficaz para pacientes com hiperplasia tireoidiana associada a hipertireoidismo, especialmente na Doença de Graves ou em casos de bócio multinodular tóxico. Assim, administra-se o radioiodo por via oral, sendo absorvido seletivamente pela tireoide, onde emite radiação beta que destrói as células tireoidianas hiperativas. Esse tratamento visa reduzir o tamanho da glândula e normalizar a produção hormonal.
No entanto, a destruição do tecido tireoidiano pode levar ao hipotireoidismo, que muitas vezes requer tratamento com hormônios tireoidianos exógenos, como a levotiroxina. A escolha do radioiodo como tratamento deve levar em consideração fatores como a idade do paciente, a presença de comorbidades, e o desejo de preservar a função tireoidiana.
Tireoidectomia
A tireoidectomia, que pode ser parcial ou total, é uma abordagem cirúrgica indicada em casos de hiperplasia tireoidiana que não respondem ao tratamento clínico ou quando há suspeita de malignidade.
Também indica-se em situações onde o bócio causa compressão de estruturas adjacentes, como a traqueia e o esôfago, levando a sintomas como dificuldade respiratória ou disfagia. Dessa forma, geralmente recomenda-se a tireoidectomia total para pacientes com câncer de tireoide ou com Doença de Graves de difícil controle. Já a tireoidectomia parcial pode ser considerada em casos de hiperplasia nodular benigna. Assim, após a cirurgia, o paciente pode necessitar de reposição hormonal com levotiroxina, especialmente se a tireoidectomia for total ou se houver insuficiência da tireoide remanescente.
Terapias Adjuvantes
Além das abordagens terapêuticas principais, algumas estratégias adjuvantes podem ser utilizadas para manejar sintomas ou prevenir complicações associadas à hiperplasia tireoidiana. Por exemplo, o uso de betabloqueadores, como o propranolol, é comum em pacientes com hipertireoidismo para controlar sintomas como taquicardia, tremores e ansiedade enquanto o tratamento específico com antitireoidianos ou radioiodo faz efeito. Em alguns casos, a suplementação com selênio pode ser considerada, especialmente em pacientes com tireoidite autoimune, embora seu benefício clínico ainda seja motivo de debate.
Monitoramento e seguimento
O seguimento clínico regular é essencial para o manejo adequado da hiperplasia tireoidiana, independentemente do tratamento escolhido. Assim, pacientes submetidos a tratamento clínico ou cirúrgico devem ser monitorados periodicamente com exames de sangue para avaliar os níveis de TSH, T4 livre e T3 livre, além de ultrassonografias para acompanhar o tamanho e a morfologia da glândula.
Além disso, em casos de hiperplasia nodular, o acompanhamento ultrassonográfico também ajuda a detectar alterações que possam sugerir malignidade, permitindo intervenção precoce.
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Referências bibliográficas
- SIPOS, J. A. Overview of the clinical utility of ultrasonography in thyroid disease. UpToDate, 2023
- SIPOS, J. A. Technical aspects of thyroid ultrasound. UpToDate, 2023







