Achados colposcópicos: diferença entre lesões de baixo e alto grau

Ginecologista realizando exame ginecológico em uma paciente deitada em posição ginecológica, com as pernas apoiadas em suportes. A médica usa luvas azuis e manipula um espéculo vaginal, com colposcópio posicionado para visualização detalhada do colo do útero. Ambiente clínico, limpo e iluminado.

Índice

Achados colposcópicos são alterações visíveis no colo do útero identificadas durante o exame colposcópico, que auxiliam na diferenciação entre lesões intraepiteliais de baixo e alto grau. Esses achados permitem ao profissional avaliar características como padrão vascular, coloração após aplicação de ácido acético e lugol, além da borda e superfície das áreas alteradas.

Lesões de baixo grau, geralmente associadas a infecções transitórias pelo HPV, tendem a apresentar epitélio acetobranco fino, limites mal definidos e vascularização regular. Já as lesões de alto grau mostram acetoembranquecimento espesso, bordas bem demarcadas, mosaico ou pontilhado grosseiro e vasos atípicos, sugerindo maior risco de progressão para neoplasia.

Leia também “Lesões por HPV: quais as principais condutas de tratamento?

Rastreamento do câncer de colo uterino

O rastreamento do câncer do colo do útero tem como principal objetivo detectar precocemente alterações nas células cervicais que possam evoluir para câncer, permitindo intervenções eficazes antes do desenvolvimento da doença.

Atualmente, existem três métodos principais para o rastreamento:

  • Teste de HPV, que identifica a presença de tipos de HPV de alto risco;
  • Exame de Papanicolau, que analisa alterações celulares associadas à infecção pelo vírus.
  • Combinação dos dois testes (co-teste), que aumenta a sensibilidade da triagem.

População-alvo para rastreio

No Brasil, recomenda-se o início da coleta do exame citopatológico (Papanicolau) aos 25 anos. Realizam-se os dois primeiros exames com intervalo de um ano e, se ambos forem normais, os próximos podem ser feitos a cada três anos.

O rastreamento deve continuar até os 64 anos, podendo ser interrompido se a mulher tiver pelo menos dois exames negativos nos últimos cinco anos. Para mulheres acima de 64 anos que nunca realizaram o exame, recomenda-se dois testes com intervalo de 1 a 3 anos e, se ambos forem negativos, o rastreamento pode ser suspenso.

Populações especiais

Nas gestantes, o rastreamento segue as mesmas recomendações de idade e intervalo que para as demais mulheres, sendo o pré-natal uma excelente oportunidade para a coleta. A técnica adequada permite inclusive a coleta do canal endocervical sem riscos à gestação.

Em mulheres na pós-menopausa, o risco de câncer cervical é menor, mas o rastreamento deve continuar conforme orientações gerais. No entanto, devido à atrofia vaginal por hipoestrogenismo, os exames podem ter mais falsos positivos, o que deve ser considerado, inclusive com possível uso de estrogênios locais antes da coleta.

Já em mulheres que realizaram histerectomia total por condições benignas, sem histórico de lesões cervicais, o rastreamento pode ser descontinuado, desde que apresentem exames anteriores normais. Se a histerectomia foi motivada por lesão precursora ou câncer, o seguimento deve ser individualizado conforme o caso.

Mulheres sem vida sexual ativa, por sua vez, não devem ser incluídas no rastreamento, uma vez que o HPV, principal causador do câncer do colo uterino, é transmitido sexualmente.

Para mulheres imunossuprimidas, como as portadoras de HIV, usuárias de imunossupressores, transplantadas ou em tratamento oncológico, o risco de lesões cervicais é maior, bem como a persistência da infecção por HPV. Nessas pacientes, recomenda-se exames citopatológicos semestrais no primeiro ano após início da atividade sexual, e, se normais, seguimento anual. Mulheres com contagem de CD4+ inferior a 200 células/mm³ devem realizar citologia a cada seis meses até melhora imunológica, além de serem avaliadas cuidadosamente quanto a lesões na vulva e região perianal.

Conduta inicial frente aos resultados do exame citopatológico

O diagnóstico citopatológico de alterações cervicais define condutas específicas de acordo com a faixa etária e a gravidade das lesões identificadas.

Em casos de células escamosas atípicas de significado indeterminado (ASC-US), em mulheres com menos de 25 anos, recomenda-se repetir o exame apenas após 3 anos. Para aquelas entre 25 e 29 anos, a repetição deve ser feita em 12 meses, e, em mulheres com 30 anos ou mais, a citologia deve ser repetida em 6 meses.

Quando há suspeita de lesão de alto grau, como no caso de células escamosas atípicas com possibilidade de lesão de alto grau (ASC-H), encaminha-se a paciente diretamente para colposcopia. O mesmo aplica-se a alterações glandulares atípicas de significado indeterminado (AGC) e a células atípicas de origem indefinida (AOI), independentemente da idade, uma vez que não se pode descartar a presença de lesão significativa.

Nas lesões intraepiteliais de baixo grau (LSIL), a conduta depende da idade: mulheres com menos de 25 anos devem repetir o exame em 3 anos, enquanto aquelas com 25 anos ou mais devem repetir em 6 meses.

Já as lesões de alto grau (HSIL), bem como os casos em que se suspeita de microinvasão, carcinoma escamoso invasor, adenocarcinoma in situ (AIS) ou adenocarcinoma invasor, exigem encaminhamento imediato para colposcopia para investigação aprofundada e definição terapêutica.

Diagnóstico citopatológicoConduta inicial
Células escamosas
atípicas de significado
indeterminado (ASC-US)
Entre 25 e 29 anos: repetir em 12 meses
≥30 anos: repetir em 6 meses
Atipia escamosa celular com alto potencial de neoplasia (ASC-H)Encaminhar para colposcopia
Células glandulares
atípicas de significado
indeterminado (AGC)
Encaminhar para colposcopia
Células atípicas de
origem indefinida (AOI)
Encaminhar para colposcopia
Lesão de Baixo Grau
(LSIL)
≥25 anos: repetir em 6 meses.
Lesão de Alto Grau (HSILEncaminhar para colposcopia
Lesão intraepitelial de
alto grau não podendo
excluir microinvasão
Encaminhar para colposcopia
Carcinoma escamoso
invasor
Encaminhar para colposcopia
Adenocarcinoma in situ ou invasorEncaminhar para colposcopia

O que é a colposcopia

A colposcopia é um exame ginecológico realizado com o auxílio de um aparelho chamado colposcópio, que permite a visualização ampliada e detalhada do colo do útero, da vagina e da vulva.

Indica-se esse procedimento principalmente quando há alterações no exame citopatológico (Papanicolau), pois ele possibilita a identificação de lesões suspeitas, como as causadas pela infecção pelo papilomavírus humano (HPV).

Além disso, também recomenda-se a colposcopia em situações clínicas sugestivas de câncer do colo do útero, como presença de sangramento vaginal anormal, secreção com odor fétido, sinusorragia ou sangramento pós-menopausa. O exame é útil ainda quando há suspeita visual de neoplasia no colo uterino durante o exame ginecológico, no seguimento de pacientes que já realizaram tratamento para lesões precursoras de câncer cervical e na investigação de alterações em outras regiões do trato genital inferior, como verrugas anogenitais ou lesões vulvares suspeitas.

Durante a colposcopia, pode-se aplicar soluções como ácido acético ou lugol para evidenciar áreas anormais e, se necessário, realizar biópsias para confirmação diagnóstica.

Leia também “Colposcopia: avaliação das patologias genitais femininas“.

Achados colposcópicos

O diagnóstico colposcópico das lesões cervicais, especialmente da neoplasia intraepitelial cervical (NIC), baseia-se em quatro elementos principais:

  • Tonalidade e intensidade do acetobranqueamento
  • Margens e relevo das áreas esbranquiçadas
  • Padrão de vascularização
  • Coloração após a aplicação de iodo

O surgimento dessas alterações, principalmente em áreas da zona de transformação (ZT), aumenta a suspeita de lesões pré-neoplásicas.

Epitélio acetobranco

O acetobranqueamento é uma resposta tecidual à aplicação do ácido acético a 5%, que desidrata as células e coagula temporariamente as proteínas nucleares. Dessa forma, regiões com maior atividade mitótica e conteúdo de DNA, como nas lesões de NIC, adquirem tonalidade branca mais intensa.

O grau de coloração está relacionado à gravidade da lesão: quanto mais intensa, densa e duradoura for a coloração branca, maior a suspeita de lesão de alto grau (NIC 2 ou 3).

Portanto, lesões de baixo grau tendem a ser mais finas, menos densas e com margens irregulares ou digitiformes. Já as lesões de alto grau aparecem como áreas branco-opacas, espessas, de margens bem delimitadas, com aspecto fosco e, por vezes, sobrelevadas ou nodulares. Ademais, a presença de variações de tonalidade dentro de uma mesma área (“lesão dentro da lesão”) também é altamente sugestiva de neoplasia de alto grau.

Fonte: WHO, s/d.

Fonte: WHO, s/d.

Pontilhado

O pontilhado corresponde à visualização frontal de alças capilares verticais presas sob o epitélio. É identificado como múltiplos pontos pretos dispostos uniformemente.

  • Pontilhado fino: vasos de pequeno calibre e proximidade entre si, geralmente associados a NIC de baixo grau (NIC 1).
  • Pontilhado grosseiro: vasos mais espessos e espaçados, mais frequente em NIC de alto grau (NIC 2 ou 3).
Fonte: WHO, s/d.

Mosaico

O padrão em mosaico é formado pela disposição de vasos capilares ao redor de invaginações epiteliais, criando áreas que lembram ladrilhos.

  • Mosaico fino: áreas pequenas, regulares, bem definidas, comum em NIC de baixo grau.
  • Mosaico grosseiro: áreas maiores, irregulares e associadas a lesões de alto grau. Quando há uma alça capilar visível no centro de cada ladrilho, o padrão é chamado de umbilicação, indicando maior suspeita de gravidade.

Vasos atípicos

Vasos atípicos são estruturas vasculares irregulares que não se enquadram nos padrões de pontilhado ou mosaico. São tortuosos, com calibres variados e trajetos bizarros. São mais comuns em lesões invasivas ou de alto grau e indicam risco elevado de malignidade.

Outros achados pertinentes

A solução de Lugol (iodo) cora o epitélio escamoso normal rico em glicogênio, tornando-o marrom-escuro ou preto. Portanto, lesões neoplásicas, pobres em glicogênio, não se coram e permanecem amarelas ou cor de açafrão.


Fonte: WHO, s/d.

A leucoplasia ou hiperqueratose é uma área branca visível antes mesmo da aplicação do ácido acético, devido ao acúmulo de queratina. Pode estar relacionada a HPV, irritação crônica ou neoplasia. Portanto, deve sempre ser biopsiada, pois pode mascarar lesões graves.

Fonte: WHO, s/d.

Os condilomas, por sua vez, são lesões exofíticas que associam-se ao HPV, com aspecto digitiforme, que ficam acetobrancas após o ácido acético.

Classificação de NIC I, II e III

A identificação colposcópica da neoplasia intraepitelial cervical (NIC) baseia-se principalmente na análise da tonalidade, margens e relevo do epitélio acetobranco na zona de transformação, bem como no padrão vascular e na coloração obtida com iodo. A variação na aparência e na intensidade desses achados é fundamental para distinguir a NIC de alterações benignas, fisiológicas, infecciosas, inflamatórias ou reativas.

As lesões de baixo grau (NIC 1) tendem a apresentar áreas acetobrancas finas, planas e menos densas, com margens irregulares, em forma de pena, chanfradas ou digitiformes.

Já as lesões de alto grau (NIC 2 e 3) caracterizam-se por áreas branco-opacas, espessas, de limites bem definidos e, muitas vezes, com relevo e complexidade estrutural. Essas podem se estender para o canal endocervical e envolver ambos os lábios do colo.

A aplicação de sistemas padronizados, como a classificação International Federation for Cervical Pathology and Colposcopy 2011 (IFCPC) ajuda a reduzir a subjetividade da avaliação e a tornar o processo mais sistemático, além de facilitar a comunicação entre profissionais e melhorar a qualidade dos registros.

Transforme sua carreira com a Pós-Graduação em Colposcopia e PTGI do Cetrus

Com base em toda essa complexidade diagnóstica, capacitar-se em colposcopia é essencial. O Cetrus oferece uma formação completa, atualizada e prática, focada nas técnicas avançadas de colposcopia e no manejo das lesões precursoras.

Referências

Cite este artigo no seu trabalho

Para citar este artigo em outro texto, clique e copie a referência em formatação ABNT.

Citação copiada!
Educa Cetrus
Educa Cetrus
Educa Cetrus Redator

Compartilhe esta publicação:

Cursos, masterclasses e e-books médicos gratuitos

Fique por dentro dos temas que realmente importam na prática médica atual.

Receba informações semanais sobre carreira, formação médica e novos conteúdos gratuitos.

CONFIRA NOSSA NEWSLETTER