A cefaleia em crianças é um sintoma frequente, mas nem sempre simples de interpretar, exigindo atenção cuidadosa à idade, história clínica e sinais associados.
Nesse contexto, diferenciar cefaleias primárias, como enxaqueca e cefaleia tensional, de cefaleias secundárias, que podem indicar condições neurológicas ou sistêmicas mais graves, é essencial para direcionar a investigação e o manejo adequados. Além disso, dores orofaciais, muitas vezes confundidas com cefaleia, podem ter origem dentária, muscular ou articular, exigindo avaliação multidisciplinar.
Epidemiologia e impacto da cefaleia na infância
A cefaleia é uma das queixas médicas mais frequentes em crianças e adolescentes, representando uma importante causa de incapacidade, especialmente em adolescentes e jovens adultos entre 10 e 24 anos.
Sua prevalência aumenta com a idade, sendo que crianças mais novas (4 a 6 anos) apresentam taxas mais baixas, enquanto adolescentes (16 a 18 anos) relatam dores de cabeça em cerca de 27% dos casos.
Antes dos 12 anos, a prevalência é semelhante entre meninos e meninas, mas após essa idade, meninas apresentam maior incidência de cefaleia crônica, refletindo também o padrão observado em adultos, especialmente para enxaqueca. Fatores genéticos influenciam significativamente, com maior ocorrência em crianças que têm familiares de primeiro ou segundo grau com histórico de cefaleia.
Além do impacto individual, a cefaleia interfere na frequência escolar e em atividades sociais, sendo um motivo comum de procura médica. Esses dados evidenciam a importância de reconhecer e avaliar precocemente a cefaleia infantil para minimizar seu efeito sobre a qualidade de vida e o desenvolvimento da criança.
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Classificação das cefaleias em crianças
As cefaleias em crianças podem ser classificadas em primárias e secundárias, sendo possível que um paciente apresente ambas simultaneamente ou que uma cefaleia primária seja exacerbada por uma causa secundária.
As cefaleias primárias são aquelas em que a dor de cabeça decorre da própria condição, sendo as mais comuns a enxaqueca e a cefaleia tensional.
Cefaleias secundárias, por sua vez, resultam de condições subjacentes, como infecções virais ou bacterianas, meningite, encefalite, traumatismos, hemorragia intracraniana, hipertensão intracraniana idiopática e tumores cerebrais.
Além das cefaleias tradicionais, crianças podem apresentar dores orofaciais, relacionadas à disfunção temporomandibular (DTM) ou a alterações odontológicas.
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Cefaleias primárias
Enxaqueca
A enxaqueca caracteriza-se por crises intermitentes de dor de cabeça, frequentemente acompanhadas de sintomas associados.
A enxaqueca crônica ocorre quando as dores acontecem em 15 ou mais dias por mês, sendo mais comum em meninas.
Cefaleia tensional
A cefaleia tensional, por sua vez, pode apresentar sintomas semelhantes à enxaqueca, mas, em caso de dúvida diagnóstica, o diagnóstico de enxaqueca deve prevalecer.
Cefaleias autonômicas do trigêmeo (CAT)
As CAT incluem, principalmente, as cefaleias em salvas e caracterizam-se por dor na região trigeminal e sinais autonômicos associados
Além disso, são raras em crianças menores de 10 anos, mas podem surgir a partir dos 3 anos, tornando-se mais frequentes entre 10 e 20 anos.
Cefaleias secundárias
Causas infecciosas
Incluem doenças febris agudas, como infecções respiratórias superiores, gripe e sinusite. São as causas mais comuns de cefaleia em crianças em pronto-socorro.
Causas neurológicas e estruturais
Abrangem meningite, encefalite, hemorragia intracraniana, hipertensão intracraniana idiopática e tumores cerebrais.
Dores orofaciais
Disfunção temporomandibular (DTM)
A DTM pode causar dor, sons articulares e limitação funcional mandibular, com variação significativa de sinais e sintomas.
Alterações odontológicas
Alterações na dentição e fatores relacionados à saúde bucal podem contribuir para dores orofaciais.
Abordagem diagnóstica da cefaleia infantil
A abordagem diagnóstica da cefaleia infantil requer uma avaliação cuidadosa e sistemática, começando pela anamnese detalhada, seguida de exame físico e neurológico completo, e, quando necessário, exames de imagem ou complementares.
Essa abordagem permite diferenciar cefaleias primárias, geralmente benignas, de cefaleias secundárias, que podem indicar condições subjacentes mais graves.
Portanto, a coleta minuciosa de informações sobre o padrão, a frequência e os sintomas associados à dor de cabeça, aliada à observação clínica, é fundamental para direcionar a conduta, evitando exames desnecessários e identificando precocemente sinais de alerta que exigem investigação adicional.
Anamnese dirigida
A avaliação da cefaleia em crianças começa com uma anamnese detalhada, incluindo:
- Histórico geral: peso, sono, visão, dieta, exercícios, condições médicas, fatores psicossociais e medicamentos;
- Histórico específico da cefaleia: idade de início, frequência, duração, localização, qualidade da dor, fatores de piora ou melhora, sintomas associados e presença de aura ou pródromo.
Além disso, o relato da criança deve ser complementado pelos cuidadores, especialmente em crianças pequenas, e o uso de estratégias como “desenhar a dor de cabeça” ou manter um diário pode ajudar a identificar padrões e facilitar o diagnóstico.
Exame físico e neurológico
O exame físico completo, por sua vez, inclui:
- Avaliação geral: pressão arterial, medidas de crescimento, ausculta e palpação de cabeça e pescoço.
- Exame neurológico detalhado: estado mental, nervos cranianos, motor, sensorial, coordenação, reflexos e marcha.
O exame físico é importante porque crianças com cefaleias primárias geralmente apresentam exame normal, enquanto alterações neurológicas ou sinais físicos podem indicar a necessidade de investigar cefaleias secundárias.
Exames de imagem e complementares
A indicação de exames de imagem em crianças com cefaleia depende da presença de sinais ou sintomas de alerta.
Em casos de alterações neurológicas, cefaleia occipital isolada ou idade ≤6 anos, a ressonância magnética (RM) é preferida por sua maior sensibilidade e menor exposição à radiação, enquanto reserva-se a tomografia computadorizada (TC) para situações específicas ou quando a RM não está disponível.
Para suspeita de hemorragia subaracnoidea, realiza-se inicialmente TC sem contraste, seguida de punção lombar se necessário. Além disso, crianças com papiledema ou uso recente de medicamentos associados à hipertensão intracraniana idiopática requerem avaliação combinada de neuroimagem, punção lombar e exame oftalmológico.
Nos casos de meningite ou encefalite, indica-se a punção lombar, precedida de TC se houver risco de hérnia. A RM com e sem gadolínio é preferida para detecção de alterações neurorradiológicas, especialmente em encefalite. Complicações de sinusite podem exigir TC com contraste das órbitas e seios da face.
Ademais, crianças com dores de cabeça intensas associadas a condições crônicas predisponentes, como imunodeficiência, anemia falciforme, neurofibromatose, histórico de neoplasia, coagulopatias ou hipertensão, também necessitam de neuroimagem.
Por fim, em casos de dor de cabeça pós-traumática persistente por mais de 7 a 10 dias, recomenda-se avaliação especializada.
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Red flags: quando investigar causas secundárias
A presença de sinais de alerta em crianças com cefaleia indica a necessidade de investigação de causas secundárias.
Esses sinais incluem:
- Manifestações sistêmicas como febre, traumatismo craniano recente, vômitos persistentes, perda de peso, comorbidades importantes e uso de medicamentos que possam aumentar a pressão intracraniana.
- Alterações neurológicas objetivas, como ataxia, papiledema, convulsões, distúrbios visuais ou alterações comportamentais, também são indicativos de alerta.
- Cefaleias de início súbito ou em “trovoada”.
- Cefaleias que despertam a criança do sono ou ocorrem nas primeiras horas da manhã.
- Cefaleias com exacerbação posicional.
- Dor de cabeça desencadeadas por manobras de Valsalva.
- Ausência de histórico familiar de cefaleia.
- Padrões novos ou progressivos.
- Idade muito jovem (≤6 anos).
Estratégias terapêuticas na cefaleia infantil
Tratamento das cefaleias primárias
O manejo das cefaleias primárias em crianças e adolescentes envolve abordagens não farmacológicas e farmacológicas.
Entre as estratégias não farmacológicas estão:
- Identificar e evitar gatilhos (como privação de sono e cafeína);
- Melhorar hábitos alimentares;
- Incentivar exercícios diários;
- Tratar problemas concomitantes de sono, humor ou ansiedade.
Além disso, terapias como cognitivo-comportamental, relaxamento com biofeedback, imagens guiadas, respiração profunda e relaxamento muscular podem oferecer benefícios adicionais.
O manejo farmacológico, por sua vez, inclui analgésicos comuns, como AINEs e paracetamol, para episódios agudos, com orientação para uso limitado a menos de 14 dias por mês, prevenindo cefaleia por uso excessivo de medicamentos.
Ademais, para pacientes com cefaleias frequentes ou incapacitantes, medicamentos preventivos podem ser considerados, seguindo protocolos específicos para enxaqueca ou cefaleia tensional crônica.
Manejo das cefaleias secundárias
As cefaleias secundárias exigem avaliação especializada quando associadas a sinais de alerta ou condições subjacentes, como hipertensão intracraniana idiopática, lesões ocupantes de espaço ou distúrbios de humor.
Tratamento das dores orofaciais
Embora menos comuns, as dores orofaciais em crianças podem coexistir com cefaleias e demandam avaliação individualizada.
Dessa forma, o manejo inclui diagnóstico correto da causa, intervenções não farmacológicas (como exercícios de relaxamento e fisioterapia) e, quando necessário, terapias farmacológicas direcionadas à origem da dor.
Prognóstico da cefaleia infantil
A evolução das dores de cabeça em crianças é variável. Em curto prazo, metade mantém a mesma frequência, um quarto apresenta aumento e outro quarto melhora. Ao longo de 6 anos, metade das crianças com enxaqueca persiste com o quadro, enquanto um quarto desenvolve cefaleia tensional e outro quarto melhora.
Além disso, meninas têm maior risco de dor persistente, e fatores como história familiar, ansiedade, depressão e dificuldade para lidar com o estresse aumentam a frequência das crises.
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Referências
- Bonthius DJ, Hershey AD. Headache in children: Approach to evaluation and general management strategies. UpToDate, 2025.
- Szperka C. Headache in Children and Adolescents. Continuum (Minneap Minn). 2021 Jun 1;27(3):703-731. doi: 10.1212/CON.0000000000000993. PMID: 34048400; PMCID: PMC9455826.






