Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva: o que é e por que essa área é cada vez mais importante no envelhecimento moderno?

Idoso sorridente sentado em consultório, segurando um chapéu, enquanto conversa de forma descontraída com uma profissional de saúde jovem, ambos sentados frente a frente em uma mesa com laptop e materiais de trabalho.

Índice

A Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva é uma área interdisciplinar que integra Neurologia, Psiquiatria e Geriatria para compreender, diagnosticar e tratar transtornos mentais e neurológicos em idosos.

Com o rápido envelhecimento populacional, essa especialidade ganha destaque por oferecer uma abordagem abrangente que considera não apenas as doenças, mas também a funcionalidade, a autonomia e a qualidade de vida. Assim, a Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva torna-se essencial no cuidado ao idoso moderno, permitindo intervenções mais precoces, precisas e humanizadas.

O que são Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva?

A Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva são campos interdisciplinares dedicados ao estudo das alterações cognitivas, emocionais e comportamentais que acometem pessoas idosas. Essa área une conhecimentos da neuropsicologia, neurologia, psiquiatria e geriatria para compreender como o envelhecimento influencia o funcionamento cerebral e como distinguir o declínio esperado da idade de quadros patológicos, como demências e transtornos psiquiátricos.

Além disso, a Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva utiliza métodos científicos de avaliação, como testes neuropsicológicos, para identificar precocemente alterações em memória, atenção, funções executivas e comportamento, possibilitando intervenções terapêuticas e programas de reabilitação que preservem autonomia e qualidade de vida.

Por que a Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva é tão relevante no envelhecimento moderno?

O rápido envelhecimento da população brasileira tornou indispensável compreender como o avanço da idade influencia o funcionamento cognitivo e emocional. Dados do IBGE mostram que a proporção de idosos tem crescido de forma acelerada, o que amplia a necessidade de avaliar questões neuropsicológicas em uma parcela cada vez maior da população.

Além disso, à medida que funções como memória, atenção e controle inibitório começam a declinar naturalmente com o passar dos anos, torna-se essencial distinguir entre um envelhecimento saudável e alterações patológicas, especialmente as demências.

Nesse contexto, a Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva assume papel central ao integrar avaliação cognitiva, análise comportamental e diagnóstico diferencial, permitindo identificar precocemente quadros neurodegenerativos ainda em fase inicial. Essa detecção precoce favorece intervenções medicamentosas e programas de reabilitação capazes de preservar autonomia e qualidade de vida.

A relevância da área aumentou ainda mais após a pandemia de COVID-19, que trouxe riscos adicionais à saúde cognitiva dos idosos. Estudos relatam que a infecção viral e seus impactos psicossociais podem gerar sequelas neuropsicológicas significativas, mesmo meses após o adoecimento. Idosos, por sua vulnerabilidade biológica e redução de atividade física durante o isolamento, foram particularmente afetados, apresentando maior risco de declínio cognitivo.Diante desse cenário, a Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva consolida-se como uma área fundamental para compreender, prevenir e tratar alterações neuropsicológicas no envelhecimento moderno, oferecendo uma abordagem integrada que favorece o bem-estar, a funcionalidade e a saúde mental da população idosa.

Principais condições abordadas pela Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva

O declínio cognitivo e as demências

O comprometimento cognitivo leve representa uma condição intermediária entre o envelhecimento saudável e as demências. Nessa fase, o indivíduo apresenta queixas de memória, atenção ou outras funções executivas que ultrapassam o esperado para a idade, mas ainda não comprometem de forma significativa suas atividades cotidianas. Esse estágio merece atenção porque pode indicar risco aumentado para evolução para quadros neurodegenerativos, embora nem todos os casos progridam.

As demências, por sua vez, configuram um declínio mais acentuado e persistente das habilidades cognitivas e comportamentais, comprometendo a autonomia e o desempenho funcional. A doença de Alzheimer, por exemplo, é a causa mais comum de demência, geralmente iniciando com prejuízos de memória episódica. Outras formas incluem a demência vascular, relacionada a lesões cerebrovasculares, e a demência frontotemporal, caracterizada por alterações marcantes no comportamento, na personalidade ou na linguagem, conforme a região cerebral acometida.

Distinguir envelhecimento típico, transtorno cognitivo leve e demência é essencial para orientar intervenções precoces. Nesse contexto, a avaliação neuropsicológica oferece um perfil detalhado das funções afetadas, contribuindo para o diagnóstico diferencial e possibilitando iniciar estratégias de tratamento e reabilitação que preservem a qualidade de vida.

Depressão e ansiedade em idosos

O envelhecimento populacional tem ampliado significativamente a ocorrência de transtornos mentais entre idosos, especialmente aqueles que vivem em instituições.

Estudos mostram que depressão e ansiedade são problemas frequentes nesse contexto, afetando diretamente o bem-estar, a funcionalidade e a qualidade de vida dessa população. Essas condições devem ser diagnosticadas conforme os critérios do DSM-5, que descreve manifestações específicas, como preocupações excessivas, inquietação e sintomas físicos no caso da ansiedade, além de humor deprimido persistente, perda de interesse, alterações de sono e apetite, cansaço e sentimentos de culpa na depressão.

A institucionalização muitas vezes ocorre devido à fragilidade física, déficits cognitivos e falta de suporte familiar. Esse processo pode aumentar a vulnerabilidade emocional, já que o idoso passa a conviver em ambientes com regras diferentes, rotina rígida e afastamento do núcleo familiar. Como consequência, sentimentos de solidão, perda de autonomia e adaptação difícil podem intensificar quadros depressivos e ansiosos.

Além disso, fatores como insatisfação com a moradia, dificuldades alimentares, problemas de saúde, dependência para atividades diárias e baixa interação social estão fortemente relacionados ao agravamento do quadro emocional. Limitações físicas e cognitivas também podem contribuir para percepções negativas sobre si mesmo e sobre o envelhecimento, aumentando o risco de sintomas psicológicos.

Ademais, a falta de suporte familiar e o isolamento social também são apontados como elementos centrais no desenvolvimento desses transtornos.

Por isso, intervenções que estimulem participação social, atividades físicas, práticas religiosas e vínculos afetivos são essenciais para promover uma convivência mais saudável e reduzir o sofrimento emocional.

Síndromes comportamentais e delirium

As síndromes comportamentais em idosos, especialmente naqueles com demência, englobam alterações emocionais, perceptivas e motoras que interferem na rotina, na segurança e na qualidade de vida.

Esses sintomas surgem de interações complexas entre fatores biológicos, psicológicos e ambientais. Além disso, podem incluir alucinações, delírio, agitação, agressividade, distúrbios do sono, apatia, ansiedade e comportamentos repetitivos, manifestações que variam conforme a etiologia da demência e tendem a se intensificar com a progressão da doença.

O delirium, por sua vez, representa uma condição aguda e potencialmente reversível, caracterizada por alterações súbitas na atenção, consciência e cognição. Esse quadro muitas vezes é precipitado por infecções, efeitos de medicamentos, dor, desequilíbrios metabólicos, privação do sono ou mudanças ambientais.

Tanto nas síndromes comportamentais quanto no delírio, a avaliação cuidadosa é fundamental. A anamnese deve identificar gatilhos como dores não tratadas, constipação, medicações recentes, abstinência de fármacos, alterações ambientais e fatores emocionais. O exame físico auxilia a detectar sinais de infecção, hipóxia, desidratação ou outras condições clínicas que possam precipitar o quadro.

Doença de Parkinson

No campo da Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva, a Doença de Parkinson (DP) ocupa lugar central entre os transtornos neurodegenerativos que afetam idosos, pois combina manifestações motoras com amplo espectro de sintomas cognitivos, psiquiátricos e autonômicos.

A DP costuma iniciar-se de forma insidiosa na terceira idade, caracterizada principalmente pela bradicinesia associada a tremor de repouso ou rigidez. Entretanto, muito antes das alterações motoras, podem surgir queixas como distúrbio do sono REM, constipação, anosmia e alterações de humor.

A progressão da DP gera impacto significativo na funcionalidade e na saúde mental do idoso. A rigidez, a lentidão e as alterações da marcha evoluem gradualmente, podendo levar a quedas, dependência e isolamento social. Paralelamente, sintomas neuropsiquiátricos como depressão, apatia, ansiedade, alucinações e declínio cognitivo tornam-se frequentes, exigindo avaliação especializada.

Como é feita a avaliação na perspectiva Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva?

Avaliação cognitiva

Na Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva, a avaliação cognitiva busca identificar alterações de memória, atenção, linguagem e funções executivas, fundamentais para o diagnóstico de transtornos cognitivos leves e demências.

O processo começa com testes simples de triagem, como repetir palavras após alguns minutos, capazes de revelar perdas de memória recente, geralmente o primeiro sinal de comprometimento cognitivo. Caso haja dificuldade, aplicam-se instrumentos formais como o Mini Exame do Estado Mental (MEEM), o Desenho do Relógio, o Teste de Fluência Verbal e o Questionário de Pfeffer, que ajudam a medir o grau de prejuízo e seu impacto funcional.

Assim, quando a triagem não é conclusiva, o idoso é encaminhado para uma avaliação neuropsicológica completa.

Avaliação comportamental e emocional

Além do aspecto cognitivo, a análise do comportamento e das emoções é essencial, pois alterações de humor, irritabilidade, apatia e retraimento social podem indicar tanto quadros depressivos quanto demências iniciais.

A depressão, altamente prevalente em idosos, muitas vezes se confunde com déficit cognitivo, exigindo avaliação cuidadosa para diferenciar tristeza esperada do envelhecimento de um episódio depressivo clínico.

Nesse contexto, a avaliação da Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva, também investiga mudanças recentes no comportamento, considerando fatores médicos, ambientais e sociais que possam desencadear ou agravar alterações emocionais.

Testes complementares utilizados

Quando sinais de comprometimento cognitivo ou comportamental são identificados, utilizam-se exames complementares para esclarecer a causa e orientar o tratamento.

Entre eles estão testes cognitivos padronizados (como MEEM, Pfeffer e Fluência Verbal), escalas funcionais (Katz, Lawton, MIF) e instrumentos de mobilidade e risco de quedas (como a Escala de Tinetti). Em casos duvidosos, recorrem-se a avaliações neuropsicológicas aprofundadas.

A investigação também envolve:

  • Revisão detalhada das doenças crônicas;
  • Avaliação sensorial;
  • Análise medicamentosa para evitar iatrogenias;
  • Investigação de condições clínicas que possam simular ou agravar declínio cognitivo, como infecções, distúrbios metabólicos ou polifarmácia.

Qual o impacto dessa área na prática clínica e na qualidade de vida dos idosos?

A Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva atua integrando diferentes especialidades para compreender o idoso de forma global. Essa articulação permite avaliar simultaneamente aspectos cognitivos, emocionais, funcionais e sociais, garantindo planos terapêuticos mais completos.

Assim, a multidisciplinaridade reduz riscos de iatrogenias, melhora adesão ao tratamento e favorece intervenções mais eficazes para transtornos comportamentais, comprometimento cognitivo e condições neurodegenerativas.

Além disso, um dos maiores impactos dessa área na prática clínica é a capacidade de identificar sinais iniciais de declínio mental antes que a perda funcional se instale. A Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva valoriza rastreio regular, orientação sobre fatores de risco e educação em saúde, permitindo intervenções preventivas.

Por fim, o cuidado psicogeriátrico e neurológico é contínuo e adaptado à trajetória individual do idoso. Em vez de intervenções pontuais, essa área acompanha a progressão das condições ao longo do tempo, ajustando terapias conforme mudanças cognitivas, comportamentais e funcionais surgem.

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Referências

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    Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK470193/

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Dr. Carlos Eduardo Passos
Dr. Carlos Eduardo Passos
Neurologia

Coordenador da Pós-Graduação em Psicogeriatria e Neurologia Cognitiva
Neurologia
CRM/SP 193674 | RQE 121893.

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