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Entenda melhor a cervicite e como tratar conforme as diferentes causas

Veja como a cervicite deve ser diagnosticada, as opções de tratamento disponíveis e como acompanhar a sua paciente com essa condição. Boa leitura! 

A cervicite é uma condição clínica ginecológica importante. Pensando nisso, é fundamental que o médico generalista também possa ser capaz de identificar essa condição e realizar o tratamento adequado, quando na ausência de um especialista. 

O que é cervicite?

A cervicite é uma inflamação do cérvix uterino, afetando portanto as células epiteliais colunares das glândulas endocervicais. 

A etiologia da cervicite, no entanto, pode ter origem infecciosa ou não infecciosa (por irritantes químicos, alergias ou trauma), podendo também ser considerada aguda ou crônica. De maneira geral, as cervicites agudas estão mais relacionadas a quadros infecciosos, enquanto que as crônicas dificilmente estão ligadas à infecção. 

Cervicite é uma condição tratável, e o acompanhamento médico é fundamental para garantir a cura da infecção e evitar complicações a longo prazo. Além disso, a prevenção de ISTs, por meio do uso de preservativos e práticas sexuais seguras, é crucial para reduzir o risco de cervicite e outras infecções relacionadas ao colo do útero. 

Embora as ISTs, como a clamídia e a gonorréia, sejam causas comuns de cervicite, também existem outras maneiras pelas quais essa inflamação do colo do útero pode ocorrer. Alguns outros fatores que podem contribuir para a cervicite incluem:

  1. Irritação química: produtos químicos irritantes, como duchas vaginais, espermicidas, géis ou lubrificantes, podem causar irritação no colo do útero e levar à cervicite;
  2. Alergias: alérgenos presentes em produtos de higiene íntima, preservativos ou outros produtos podem desencadear reações alérgicas no colo do útero;
  3. Lesões ou traumas no colo do útero, resultantes de atividades como relações sexuais ásperas ou inserção inadequada de dispositivos contraceptivos, podem causar cervicite.
  4. Infecções bacterianas ou virais que não são transmitidas sexualmente também podem inflamar o colo do útero, embora isso seja menos comum.

Principais agentes infecciosos causadores de cervicite 

De maneira geral, a inflamação geralmente é causada por infecções, sendo as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) as causas mais comuns, incluindo Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae e Trichomonas vaginalis. No entanto, como comentamos, a cervicite também pode ocorrer devido a fatores não infecciosos, como irritantes químicos, alergias ou trauma.

 A etiologia mais comum, no entanto, é a Chlamydia trachomatis e a Neisseria gonorrhoeae. 

Cervicite em uma mulher com gonorreia. Fonte: Sexually Transmitted Diseases: STD Clinical Slides. Centers for Disease Control and Prevention.

Clínica da paciente com cervicite

Os principais sintomas da cervicite incluem corrimento vaginal anormal, dor pélvica, sangramento intermenstrual ou pós-coital e, ocasionalmente, disúria (dor ou ardor ao urinar). 

No entanto, é importante destacar que muitas pessoas com cervicite podem ser assintomáticas, o que a torna uma condição que pode passar despercebida.

O corrimento vaginal anormal dessa paciente é o sintoma mais característico. Ele pode variar em cor, podendo ser amarelado, verde ou mesmo cinza. Sua consistência também pode vairar, sendo aquosa ou mucosa, bem como o odor normalmente desagradável. Por isso, não existe sintomas patognomônicos ou muito específicos. 

Esse conjunto de características geralmente se relaciona bem quando a causa da cervicite é por clamídia ou por gonorreia. Em geral, a clamídia apresenta um corrimento mais aquoso, enquanto que a gonorreia com um aspecto mais leitoso. 

Em alguns casos a paciente ainda pode relatar um prurido vaginal. Esse sintoma é muito mais comum naquelas pacientes cuja causa de cervicite não é por clamídia ou gonorreia, mas por alérgenos ou irritações químicas. O ato de lavar o interior da vagina com sabonete íntimo com essência (não recomendado pelos ginecologistas) pode promover essa reação. 

Durante a relação sexual penetrativa a paciente com cervicite pode sim ter uma experiência dolorosa, secundária à inflamação do colo uterino. Em casos mais graves, a cervicite pode até mesmo desencadear sintomas sistêmicos, como febre e mal-estar. 

Como vimos, os sintomas não são tão especificos quanto em outras patologias ginecológicas. Por essa razão, é válido que o especialista esteja atento à essa suspeita diagnóstica, que poderá ser mais bem embasada com a passagem do espéculo no exame físico. 

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Exame físico e colposcopia: o que esperar?

A anamnese prévia ao exame físico deve contar com as perguntas sobre sintomas, histórico médico e sexual, uso de contraceptivos, e outros fatores relevantes.

O sintoma mais característico da cervicite é o corrimento vaginal anormal. Por isso, ao exame especular pode ser identificado um fluxo vaginal aumentado. Como o aspecto pode variar muito, é interessante que você exclua diagnósticos diferenciais, como candidíase e tricomoníase, cujo corrimentos são bem característicos. À visualização do colo do útero é possível identificá-lo como inflamado com aperência eritematosa, inchado ou com aspecto anormal. A inflamação pode ser localizada ou difusa.

Na imagem abaixo, a secreção mucopurulenta é visível proveniente do orifício em um paciente com cervicite por Chlamydia. O colo do útero é eritematoso e friável.

Se uma mulher com cervicite apresentar sintomas graves, como sangramento vaginal intenso ou dor intensa, o médico pode realizar uma colposcopia para avaliar a causa subjacente da cervicite e identificar lesões ou complicações.

Em alguns casos de cervicite, pode haver sangramento do colo do útero. Isso pode ser observado como manchas de sangue no espéculo vaginal durante o exame, ou mesmo na passagem da escova endocervical. Essa apresentação é agravada em pacientes menopausadas, secundário à atrofia de colo. 

Devem ser buscadas a presença de lesões, úlceras ou outras anormalidades no colo do útero que possam estar relacionadas à cervicite ou a condições subjacentes, como infecções sexualmente transmissíveis.

Testes laboratoriais

É importante ressaltar que o diagnóstico preciso da cervicite requer não apenas o exame físico, mas também pode envolver testes laboratoriais para identificar a causa subjacente da inflamação, como infecções por clamídia, gonorréia ou outros patógenos. Portanto, o médico pode solicitar testes adicionais, como culturas, testes de amplificação de ácido nucleico (NAAT) ou testes de Papanicolau, para confirmar o diagnóstico e guiar o tratamento apropriado.

As amostras que podem ser coletadas e que ajudam no diagnóstico são: 

  1. Cultura bacteriana, afim de identificar as bactérias específicas como Chlamydia trachomatis ou Neisseria gonorrhoeae.;
  2. Testes de Amplificação de Ácido Nucleico (NAT), para identificar DNA ou RNA com alta sensibilidade;
  3. Papanicolau (Pap), em busca de avaliar possíveis alterações nas células cervicais. 

Quando realizar a coleta de amostras para cultura, PCR ou testes de amplificação 

Os testes são indicados na falha do tratamento com a persistência dos sintomas iniciais. Através dos testes, a causa subjacente pode ser identificada e um tratamento mais bem direcionada pode ser realizado. Por exemplo, se houver suspeita de clamídia ou gonorréia, a coleta de amostras para esses testes é indicada, sendo essas as principais suspeitas. Em alguns casos, a depender do serviço, esses testes fazem parte da rotina de triagem. 

Se a paciente tiver um histórico sexual de risco, como múltipos parceiros sexuais ou relações sexuais desprotegidas, o médico pode recomendar a realização de testes para infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) mesmo na ausência de sintomas.

Após o tratamento da cervicite, o médico pode solicitar testes de acompanhamento, como PCR ou NAT, para verificar se a infecção foi completamente erradicada. Em casos de cervicite causada por ISTs, pode ser necessário avaliar e tratar os parceiros sexuais da paciente para evitar a reinfecção.

Tratando a cervicite: infecciosa e não-infecciosa

O tratamento da cervicite visa o alívio dos sintomas e a prevenção de infecção do trato genital superior. No entanto, pensando nessa possibilidade preocupante e da transmissão sexual, o tratamento não deve ser adiado no aguardo dos resultados dos testes. 

Pensando nisso, indivíduos diagnosticados ecebem tratamento independentemente da sintomatologia. 

O tratamento empírico envolve a administração de antibioticoterapia, sendo as medicações escolhidas azitromicina, doxiciclina ou eritromicina para tratar infecções bacterianas, como clamídia ou gonorréia. Segue-se conforme o seguinte: 

Clamídia

  • Preferencial:  Doxiciclina 100 mg por via oral duas vezes ao dia durante sete dias (cobre também para gonorreia);
  • Alternativa: Azitromicina 1g VO, uma vez ao dia, ou Levofloxacina 500mg VO, diariamente por 7 dias, na ausência da Doxiciclina. 

Gonorreia

Recomenda-se para o tratamento a Ceftriaxona em dose única intramuscular (IM), determinada pelo peso do paciente, sendo:

  • <150 kg – Ceftriaxona 500 mg por via intramuscular uma vez;
  •  ≥150 kg – Ceftriaxona 1 g por via intramuscular uma vez. 

T. Vaginalis

  • Metronidazol 500 mg por via oral duas vezes ao dia durante sete dias;
  • Tinidazol 2g (04 comprimidos de 500mg) VO, e o(s) parceiro(s) também deve ser tratado.

Vírus herpes simplex (HSV)

  • Aciclovir 400mg, VO, três vezes ao dia durante 7 a 10 dias;
  • Famciclovir 250mg, VO três vezes ao dia durante 7 a 10 dias;
  • Valaciclovir 1000mg, VO, duas vezes ao dia durante 7 a 10 dias. 

No tratamento da gonorreia, as fluoroquinolonas e a doxiciclina não são alternativas adequadas devido ao aumento da resistência a esses medicamentos. Além disso, a terapia com azitromicina oral isoladamente pode não ser eficaz em alguns casos de gonorreia, devido ao aumento da resistência a esse antibiótico. 

Portanto, é fundamental usar abordagens terapêuticas atualizadas e baseadas nas diretrizes clínicas mais recentes para tratar com eficácia essa infecção sexualmente transmissível.

Cervicite em gestantes 

O diagnóstico da cervicite em gestantes se dá da mesma maneira que em pacientes não gestantes. No entanto, é importante que o diagnóstico seja dado de forma mais cuidadosa, visto que o estrogênio pode mimetizar a cervicite aguda. 

A diferença é que para esse grupo de pacientes, a Azitromicina é preferida diante da Doxiclina e Fluoroquinolonas, que devem ser evitadas durante a gravidez. 

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Referências

  1. Acute cervicitis. Anna Maya Powell, MD. UpToDate
  2. Vaginitis in adults: Initial evaluation. Jack D Sobel, MD. UpToDate
  3. Cervicite: Assintomática e Perigosa? Luiz G. M. de Oliveira Andrade. Disponível em: https://www.sanarmed.com/cervicite-assintomatica-e-perigosa-colunistas.

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